izmir bayan escort

Posts Tagged ‘aníbal augusto sardinha’

Sonhador

O texto a seguir integra a série Choros inédios de Garoto e possui a autoria de Jorge Mello e revisão e diagramação de Zé Carlos Cipriano:

Numa das minhas incursões ao centro da cidade do Rio de Janeiro, com objetivo de pesquisar no setor de microfilmagens da Biblioteca Nacional (BN),deparei-me com uma raridade: o disco Carnival In Rio, gravado em Madrid pelo violonista Djalma de Andrade, o Bola Sete, e seu Conjunto. Lá estava ele na barraca do meu amigo Oliveira, que vende discos de vinil na rua Pedro Lessa, ao lado da BN. Ele percebeu minha emoção e riu…”Esse ninguém tem”, disse ele me provocando, “estava aí te esperando!”. Imediatamente peguei o disco e voei para casa, louco para ouvir aquela preciosidade!

Abrindo o disco está o Sonhador de Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, choro aqui apresentado numa forma não ortodoxa, sem a formação típica do regional. Em particular, aprecio muito mais os choros de Garoto executados do modo que fez o conjunto do Bola Sete. Cito como outro exemplo o choro Meditando, mostrado na edição passada.

A gravação original deste choro foi feita em 2 de outubro de 1945 pelo seu autor, tendo o conjunto Bossa Clube a acompanhá-lo. Neste mesmo dia gravaram o choro (também de Garoto) Celestial e acompanharam a cantora Emilinha Borba no samba O Outro Palpite (Garoto e Grande Otelo) e no choro Divagando, autoria de Nelson Miranda e Luiz Bittencourt.

Capa do disco Carnival in RioO disco Carnival In Rio, com Bola Sete e seu Conjunto, possui aspectos interessantes. Na sua contracapa é declarado de forma inequívoca o local da gravação – Madrid – muito embora não se faça menção à data desta gravação. Na verdade, em nenhum lugar – capa, contra capa e rótulo do disco – tal data é mencionada. Encontramos no texto da contracapa o roteiro da excursão feita por Bola Sete e Seu Conjunto inicialmente pela América do Sul: Festival Cinematográfico de Punta del Este, em Montevidéu e depois em vários teatros de Buenos Aires, na Rádio Belgrado, no Sunset Club, no Chile (Waldorf) e no Peru (Grill Bolivar) e depois na Europa, especialmente na Espanha, onde se apresentaram com grande êxito na Parilla Rex, em Madrid.

Foi aí, de acordo com o texto, que Fernando J. Montilla contratou Bola Sete e seu conjunto para gravarem este disco lá mesmo. Mas e a data?

Lembrei-me de uma entrevista concedida por Bola Sete ao jornalista Flavio Moreira da Costa, que saiu publicada no “Caderno B” do Jornal do Brasil em 20 de fevereiro de 1973. Tinha a impressão que lá se falava algo sobre aquela excursão e de fato o entrevistado diz o seguinte:

“Tinha uma moreninha que era crooner da Boate Beguin, na Glória. Eu fui convidado para fazer um conjunto e levei ela comigo. Era um talento fabuloso, cantava em várias linguas, mas era de convivência difícil. Tocamos no Drink, no Vogue. Ela se chamava Dolores Duran. Era a época de Bola Sete e Seu Conjunto. Fiz depois uma orquestra para o Baile dos Artistas no Hotel Glória. Recebemos convite para irmos até Buenos Aires, Montevidéu, no Festival de Punta del Este- acho que era 1954. Permanecemos dois meses com muito sucesso. Depois chegamos a fazer uma turnê pela Espanha.”

Tudo parecia se encaixar perfeitamente, de modo a me fazer acreditar que a data da gravação era em torno de 1954. Até o repertório é coerente com esta data! Mesmo não sendo Dolores Duran a cantora que participou (em algumas faixas) da gravação do disco, e sim Therezinha Bittencourt, ainda é possível acreditar naquela data. Interessante é que este disco foi relançado pela Sinter (SLP 1727) em 1958 com o título Bola Sete em Hi-Fi ! (agradeço aqui ao dono do  blog Vinyl Maniac por algumas valiosas informações) – recentemente uma discussão sobre esse assunto apareceu também no blog Loronix!

Contracapa do LP Carnival in Rio

Ouça agora a versão do choro Sonhador, de autoria de Garoto, gravada por Bola sete e seu conjunto (clique no botão PLAY abaixo para ouvir e/ou no link “Download” para salvá-la):

Lamentos no morro (segunda parte)

O texto a seguir integra a série O cancioneiro de Garoto, em parceria com Jorge Mello e entrevista realizada por Zé Carlos Cipriano (conheça as demais músicas e a proposta da série neste artigo):

Para uma melhor compreensão do artigo veja também a primeira parte, que fala sobre a versão instrumental original de Lamentos no morro.

Árduo é o desafio para qualquer compositor, mesmo dos bons, em bolar uma letra para uma música instrumental que foi criada e pensada unicamente para esse propósito. Sobretudo quando se trata de uma composição de Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, e uma das mais expressivas do repertório instrumental brasileiro, como Lamentos no morro.

Capa do CD Brasis, de Gabriel Moura Assim o carioca Gabriel Moura tomou para si esse desafio, tornando-o público em 2006 ao lançar seu primeiro disco solo, Brasis, e gravar na última faixa deste a sua versão letrada, junto com seu parceiro Rogê, do samba de Garoto.

Vindo de uma família de músicos – é sobrinho do clarinetista Paulo Moura – Gabriel, que além de compositor e cantor (participou de vários grupos, entre eles o “Farofa Carioca“, que projetou seu nome, o de Seu Jorge e demais colegas no cenário musical) é também diretor musical em peças teatrais (venceu o Prêmio Shell de Teatro na categoria trilha sonora em 2002), obteve êxito ao criar, através de sua letra, uma paisagem urbana típica da cidade do Rio de Janeiro sob medida para uma música composta há mais de 50 anos atrás, porém atemporal, uma vez que representa de modo tão intenso – mesmo tendo sido ela gerada por um paulista! – a alma carioca.

Em entrevista ao Sovaco de Cobra, Gabriel, fala da idéia e do processo de criação de Lamentos no morro, assim como as intervenções dos demais envolvidos no trabalho, como seu parceiro Rogê, o violonista Zé Paulo Becker, responsável pelo arranjo, e Paulo Moura, pela direção musical:

Zé Carlos Cipriano: Como foi seu primeiro contato com a obra de Garoto?

Gabriel Moura: O meu primeiro contato com a obra de Garoto foi a partir da canção Gente humilde, que o Chico e o Vinícius letraram. Sempre achei linda, tanto a melodia quanto a letra suburbana que eles fizeram e eu sempre tocava ela na noite, quando comecei a tocar em bares ainda adolescente. Lamentos do Morro, fui conhecer anos depois, quando fiz um show com Paulo Moura e Yamandú Costa sobre Baden e o Yamandú fazia a primeira parte dela como introdução para Canto de Ossanha no show. Eu ficava louco com aquilo.

Como foi o processo de criação junto com seu parceiro Rogê para compor a letra?

Gabriel MouraUm dia, cheguei na casa do Rogê e ele estava com um livro de partituras do Garoto, estudando no violão. Quando ele tocou Lamentos do Morro eu saquei logo que poderiamos fazer uma letra pra ela. Normalmente, fazemos canções em uma tarde de trabalho, já que desenvolvemos uma grande afinidade como parceiros, mas dessa vez não ficamos felizes com o resultado, afinal se tratava de um clássico da música brasileira e tínhamos que ter todo cuidado e respeito. Pelo telefone, diariamente nos falávamos sobre a letra e vibrávamos muito com cada frase que conseguíamos encontrar para cada parte da melodia, vendo a canção se revelar aos poucos. Levamos exatamente um mês pra terminar e nos sentirmos satisfeitos.

Garoto é conhecido por ser um compositor sofisticado, à frente de seu tempo no que se refere à harmonias e arranjos. Foi difícil submeter a sua verve compositora à métrica da melodia de Garoto? A opção em letrar apenas a segunda parte da música foi intencional?

Foi intencional letrar somente a segunda parte pois era ali que eu visualisava uma letra. O engraçado é que a melodia quase que nos dizia quais as palavras que deveríamos usar, mas pra isso era preciso muita atenção da nossa parte e imaginação para que nos transportássemos para o alto de uma laje no morro. Um cachorro latindo no final de tarde, crianças brincando, as luzes da cidade se acendendo aos poucos e uma idéia de saudade dos tempos em que a favela era mais poética e o Rio era mais tranquilo. Um grande amor do passado fechava a idéia de um tempo feliz que passou e ficou na lembrança.

Como foi o processo de criação do arranjo minimalista, porém belo e sob medida, para voz, violão e cuíca? A decisão em respeitar significativamente o arranjo original da peça para violão partiu de Zé Paulo Becker?

O Zé Paulo Becker, violonista excelente que conheci através do Yamandú, já havia gravado ela em um de seus CDs. Ele já chegou no estúdio com ela pronta, “debaixo do dedo” e linda. Paulo Moura, que fez a direção musical e arranjos do meu disco, sugeriu a introdução que cita Olê Olá, do Chico Buarque. Pediu ao Zé que fizesse uma abertura mais lenta pra que fosse valorizada a letra e assim foi feito. Zé Paulo arrasou com seu violão de seis cordas, com a sexta corda afinada em ré. Tocou o arranjo todo, inclusive o solo, de uma vez só, depois de uma ou duas passadas no máximo pra ensaiar. A cuíca minimalista do André Corrêa (do grupo Batuque na Cozinha) foi outra idéia genial do Paulo para ambientar a canção na laje da favela. Era o cachorro latindo ao fundo.
Quando fizemos o pedido de liberação da obra para ser incluída no cd, veio a notícia que me deixou feliz e aliviado da responsabilidade de mexer em algo tão precioso: os cumprimentos e elogios da família do Garoto que adorou a letra e a gravação.

Veja a seguir a letra de Gabriel Moura e Rogê para o samba de Garoto:

Fonte da imagem: Flickr - Daniel Benevides
Rio de Janeiro, ao entardecer. (foto: Daniel Benevides – via Flickr)

De cima da laje no morro
Pensando nos tempos de outrora
Eu vi a cidade antiga
Do Rio que banhou meu coração
Chorei com saudade de você
Ao assistir a aurora

A noite já vem apagando
Barracos estão acendendo
Em mim a lembrança dos dias
Que juntos nós bordamos de paixão

Eu vou descer pro asfalto
e esquecer a falta que faz
a sua doce companhia
encontrar um novo amor
em paz

Ouve o lamento
O meu lamento do morro
O meu lamento de amor

Ouça o samba Lamentos no morro, de Garoto, em versão cantada com letra de Gabriel Moura e Rogê no disco Brasis (2006), na interpretação de Gabriel Moura, acompanhado por Zé Paulo Becker ao violão e André Corrêa na cuíca (clique no botão PLAY abaixo para ouvir e/ou no link “Download” para salvá-la):

Lamentos no morro (primeira parte)

O texto a seguir integra a série O cancioneiro de Garoto e possui a autoria de Jorge Mello e revisão e diagramação de Zé Carlos Cipriano (conheça as demais músicas e a proposta da série neste artigo):

Em entrevista concedida ao violonista e pesquisador paulista Ronoel Simões em 1967, publicada em dezembro na revista “Violão e Mestres”, o professor de violão Atílio Bernardini assim se referiu ao seu aluno Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto:

“Era um aluno rebelde, seguia os conselhos que entendia, usava o polegar como palheta…”.

Esta forma nada convencional de tocar violão, introduzida por Garoto, pode ser apreciada na gravação de suas mais preciosas e brasileiras composições, o samba Lamentos do Morro (sem data de composição exata, provavelmente entre 1948 e 1950), registrada por Ronoel Simões com o próprio compositor executando-a, em 1950.

Garoto ao violão - foto: acervo Jorge MelloAlgumas características técnicas referentes à execução do instrumento nesta peça violonística, alinhadas à intenção temática de Garoto, despertam a atenção dos ouvintes mais atentos.

A introdução, por exemplo, é tocada com o polegar imitando uma palheta, para cima e para baixo nos primeiros compassos; em seguida dois acordes por compasso aparecem num desenho rítmico sincopado e, por fim, permanece o toque contínuo do polegar, imitando os intrumentos percussivos típicos do samba.

A melodia, na tonalidade de sol maior, é executada na região média do violão e remete o ouvinte aos sambas tocados nas favelas cariocas daquela época. O violonista paulistano Paulo Bellinati, em seu memorável trabalho The Guitar Works of Garoto (vol. 1), afirma que esta melodia é um tributo a Ary Barroso, evocando seu famoso samba Aquarela do Brasil.

Lamentos do Morro foi gravada pela primeira vez por Geraldo Ribeiro em junho de 1980. Entretanto, uma das gravações mais expressivas desta música foi feita por Raphael Rabello no disco de mesmo nome em 1988. A partir daí, esta peça passou a constar no repertório de inúmeros violonistas, dentre eles Marco Pereira, que solfejava a melodia simultaneamente som o solo de violão, evidenciando assim sua beleza.

O próximo artigo da série irá falar sobre a versão letrada e cantada por Gabriel Moura para esta música.

Ouça o samba Lamentos no morro, de Garoto, na interpretação do próprio autor (clique no botão PLAY abaixo para ouvir e/ou no link “Download” para salvá-la):

Vivo sonhando

O texto a seguir integra a série O cancioneiro de Garoto e possui a autoria de Jorge Mello e revisão e diagramação de Zé Carlos Cipriano (conheça as demais músicas e a proposta da série neste artigo):

As músicas Meditação, Gente humilde e Vivo sonhando faziam parte de uma suíte para violão composta por Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, em 1945. Fato curioso é que todas ganharam letra posteriormente, as duas primeiras de um poeta mineiro que optou pelo anonimato e a terceira de Badeco, ex-integrante do conjunto vocal Os Cariocas.

Os Cariocas: da esq. para dir. Badeco, Quartera, Waldir, Severino Filho e Ismael Neto

Vivo sonhando foi interpretada pelo cantor cearense Gilberto Milfont no programa “Um Milhão de Melodias” já com a letra de Badeco. A acompanhá-lo estava a Orquestra Brasileira de Radamés Gnattali e Garoto ao violão.

BadecoDe todos os grandes programas da Rádio Nacional, “Um Milhão de Melodias” era o maior deles: tinham seus ensaios gravados em discos de alumínio cobertos com acetato, cuja finalidade principal era a de corrigir o posicionamento dos microfones para o intérprete e a orquestra. Com o fim daquela emissora, os acetatos foram empilhados sem muito cuidado e depos transferidos para o Museu da Imagem e do Som.

Uma grande parte deles foi danificada. Alguns, como este em que foi gravada Vivo sonhando, estavam em estado precário! Felizmente o pesquisador Jorge Mello conseguiu obter este registro, talvez pela última vez.

Emmanoel Barbosa Furtado, o Badeco, integrava em 1944 o conjunto “Os Irapurus”. Entusiasta do violão, assistia sempre aos programas em que Garoto participava na Rádio Nacional, surgindo assim uma grande amizade que se consolidou no ano seguinte.

Depois disso, Badeco integrou o conjunto “Os Tupiniquins” e finalmente Os Cariocas. Nestes conjuntos, todos com nomes indígenas, ele atuara como vocalista e violonista.

Não se tem notícia do lado letrista de Badeco em outras músicas. A seguir está a sua única letra:

Vivo sonhando com você
meu grande amor
Sentindo perto, muito perto
seu calor

Na esperança de um dia
ter você bem junto a mim
então serei muito feliz
porque você voltou

Todas as noites
a saudade vem chegando
Mesmo acordado
com você vivo sonhando

Porque meu sol
o meu amor
o grande sonho
em minha vida

é você minha querida
meu grande amor
minha querida
minha querida…

Ouça a canção Vivo sonhando, de Garoto e Badeco, interpretada por Gilberto Milfont no programa “Um Milhão de Melodias”, aacompanhado pela Orquestra Brasileira de Radamés Gnattali e Garoto ao violão (clique no botão PLAY abaixo para ouvir e/ou no link “Download” para salvá-la):

Eu comprei uma ilusão

O texto a seguir integra a série O cancioneiro de Garoto e possui a autoria de Jorge Mello e revisão e diagramação de Zé Carlos Cipriano (conheça as demais músicas e a proposta da série neste artigo):

Garoto (à direita) no Rio de Janeiro - acervo Jorge MelloParceria única de Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, com Moacir Braga, o samba canção Eu comprei uma ilusão fez par com a valsa Ainda te lembras de mim? no disco Odeon 12053, gravado em 30/09/1940 pelo cantor Valdemar Reis, tendo a acompanhá-lo o próprio Garoto (violão tenor) e seu Conjunto. Nesta gravação percebe-se, sobretudo, a riqueza do acompanhamento feito pelo instrumento do compositor.

Parece provável que Garoto e Moacir Braga tenham se conhecido através do acordeonista Arnaldo Meireles. Este gravou um disco em 1936 pela Columbia contando com o acompanhamento da dupla Garoto & Aimoré nas valsas A Vida é um Sonho e Rei da Banha (título estranho para uma valsa…), sendo a primeira de Arnaldo e a segunda de Moacir Braga. A colaboração entre esses dois foi intensa em termos de parcerias e interpretações.

Por outro lado, Garoto e Arnaldo eram amigos de infância na Vila Economisadora, bairro operário da cidade de S. Paulo onde Garoto crescera. Arnaldo começou no violino por 3 anos, passando depois ao violão e finalmente ao a

cordeon, instrumento com o qual se firmou no cenário musical. Com o acordeon gravou duas músicas de Garoto em 03/06/1938, pela RCA Victor (disco 34 441): Suspirando, valsa, e Saudades daqueles Tempos, mazurka.

Ainda em sua fase violonística, Arnaldo formou o “Conjunto Regional do Pory”, de acordo com entrevista concedida à Gazeta de S. Paulo em 12/06/1931:

“(…) este grupo era composto por Arnaldo Meireles, vilão e cavaquinho, Mario Fernandes, violino, Aurora Fernandes, piano, Garoto, banjo, e Waldemar Beferi, bateria. Porém, mudando de residência, ficou o grupo dissolvido.”

Agora veja a letra de Moacir Braga para a música Eu comprei uma ilusão:

Eu comprei uma ilusão
no fulgor do teu olhar.
Num sorriso de tua boca
tive a inspiração bem louca
de um amor edificar.

E a ilusão que me vendeste
hoje é realidade,
pois encontro neste amor
o sonho confortador
da nossa felicidade.

Felicidade
é a ilusão que num segundo
faz do amor
o maior sonho do mundo.

Felicidade
é tristeza, é alegria,
pois até na própria dor
há encanto, há poesia.

Ouça o samba canção Eu comprei uma ilusão, de Garoto e Moacir Braga, interpretado por Valdemar Reis (clique no botão PLAY abaixo para ouvir e/ou no link “Download” para salvá-la):

zp8497586rq

O Sino da Capelinha

O texto a seguir integra a série O cancioneiro de Garoto e possui a autoria de Jorge Mello e revisão e diagramação de Zé Carlos Cipriano (conheça as demais músicas e a proposta da série neste artigo):

As últimas gravações de Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, foram realizadas em 20 de abril de 1955, treze dias antes de sua morte. Foram três discos 78 RPM pela Odeon: dois deles mostrando o virtuosismo do compositor no violão elétrico e na guitarra:

  1. Disco nº 14 118, lançado em novembro de 1956, contendo o belíssimo Choro Triste nº2, de sua autoria e a valsa Primavera, de seu amigo Armandinho.
  2. Disco nº 13 852, lançado ainda em maio de 1955, com duas composições de Chopin: Valsa do Adeus (Op. 69, nº1) e Mazurka (Op. 34, nº2).

O terceiro disco integrou o “Suplemento Junino” da Odeon, contendo as músicas Polquinha Sapeca, de Joubert de Carvalho e O Sino da Capelinha, de Garoto e Carlos Alberto Ribeiro, e foi lançado em junho de 1955. Nestas duas músicas Gar

oto tocou banjo – fora, aliás, o instrumento por ele usado em sua primeira gravação!!!

Garoto em frente ao Pavilhão Brasileiro da feira de New York - foto: acervo Jorge Mello

Vejam a letra de Carlos Alberto Ribeiro para a composição de Garoto:

Três santinhos eu vou festejar:
Pedro, Antônio e João.
E nas três capelinhas deixar (bis)
cravos e rosas e manjericão.

Na capelinha o sino bateu
Meu coração bateu por alguém
blem blão,blem blão, blem blão.
Como é bom te querer bem!

Ouça O Sino da Capelinha, de Garoto e Carlos Alberto Ribeiro (clique no botão PLAY abaixo para ouvir e/ou no link “Download” para salvá-la):

zp8497586rq

Indiferença

O texto a seguir integra a série O cancioneiro de Garoto e possui a autoria de Jorge Mello e revisão e diagramação de Zé Carlos Cipriano (conheça as demais músicas e a proposta da série neste artigo):

O violonista e compositor carioca Luís Bittencourt era, além de músico, um letrista de mão cheia. Seu maior sucesso como tal foi o bolero Nova ilusão em parceria com Zé Menezes, gravado em 1948 pelo conjunto vocal Os Cariocas. Num depoimento concedido ao Museu da Imagem e do Som (MIS-RJ) em 06 de maio de 1975, fizeram a seguinte pergunta:

Bittencourt, quais os violonistas que mais te impressionaram?

Ao que ele respondeu:

Garoto. Ele foi o que mais me marcou, pois criou um novo estilo. Zé Menezes é extraordinário e Baden, fantástico.

Com Garoto, Bittencourt compôs dois choros, Amoroso e Indiferença, e um fox, Melodia do Céu, música inédita, da qual o pesquisador Jorge Mello possui em seu acervo sobre o compositor apenas a melodia.

O choro Indiferença foi gravado apenas duas vezes: a primeira, não comercial, mostra letra e música na voz da cantora Regina Célia, acompanhada pela orquestra do maestro Chiquinho num programa não identificado da Rádio Nacional. A segunda, gravada na Todamérica em 22 de julho por Abel Ferreira (sax-alto), mostra a versão instrumental deste belo choro. Nesta gravação, que está disponível no site do Instituto Moreira Salles, Garoto participa na guitarra, como integrante do conjunto que acompanha Abel.

Veja agora a letra de Luis Bittencourt para a canção de Garoto:

Numa noite linda de luar assim
Me prend=ií num beijo aos abraços do amor
No instante que se eternizou pra mim
Tantas juras tu fizeste com calor

Quando estou sozinha a recordar
Sinto que a saudade invade o coração
E choro ao recordar que nosso amor
foi ilusão de uma noite de luar

Condenada a viver na indiferença apenas
por um capricho sem razão
Trago na garganta o grito da descrença
e no coração trago a sua ingratidão.

Meu amor jamais terás, afirmo com franqueza:
a mim nunca mais enganarás.
Juro pela própria natureza
Juro até pela beleza de uma noite de luar.

Caricatura de Garoto

Ouça a canção Indiferença, de Garoto e Luís Bittencourt, na interpretação de Regina Célia (clique no botão PLAY abaixo para ouvir e/ou no link “Download” para salvá-la):

Lágrimas de sonho

O texto a seguir integra a série O cancioneiro de Garoto e possui a autoria de Jorge Mello e revisão e diagramação de Zé Carlos Cipriano (conheça as demais músicas e a proposta da série neste artigo):

A canção Lágrimas de sonho foi apresentada por pelo ator e compositor José Vasconcelos ao cantor Carlos José, que a gravara no LP CBS Monaural 37373, em 1965, dez anos após a morte de Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, um dos seus autores.

Garoto, Radamés Gnattali e Chiquinho do Acordeom (do centro à direita) - Foto: acervo Jorge Mello

Esta talvez tenha sido a última de suas parcerias com José Vasconcelos. Assim, Lágrimas de sonho é uma bela música praticamente desconhecida, inclusive do público aficcionado por canções dessa época.

Era sabida a existência desta música através do livro “Garoto, Sinal dos Tempos” de Iratí Antonio e Regina Pereira (Editora Funarte, 1980) mas não de sua gravação. Esta só se teve ciência através da entrevista que Jorge Mello, pesquisador da vida e obra de Garoto, fez com José Vasconcelos. Assim ele então contou da gravação feita por Carlos José. Já no Rio de Janeiro, Jorge Mello iniciou a busca em todos os sebos da cidade, sem sucesso algum… foi somente com o próprio Carlos José que o mencionado disco foi obtido.

Veja a seguir a letra póstuma de José Vasconcelos para a canção de Garoto:

Cheguei cansado
e me sentei no chão
ouvindo música
suave ao violão
Lembrei, saudoso,
dos momentos de alegria
que passava todo dia
sempre ao lado de você
Tão tristemente
fui sentindo a melodia
que nem lágrimas sentia
E as deixava rolar
Caíram frias
e macias a soar
Cada gota era uma nota
que eu ouvia sem pensar
Meu pensamento
devaneia sem querer
Mas de repente
um suspiro faz lembrar
Que é sonho só
e não há quem ao meu lado
e que vivo apaixonado
sem saber mais nem pensar

Ouça a canção Lágrimas de sonho, de Garoto e José Vasconcelos, na interpretação de Carlos José (clique no botão PLAY abaixo para ouvir e/ou no link “Download” para salvá-la):

Baião do Rouxinol

O texto a seguir integra a série O cancioneiro de Garoto e possui a autoria de Jorge Mello e revisão e diagramação de Zé Carlos Cipriano (conheça as demais músicas e a proposta da série neste artigo):

Em seu livro “Choro, do quintal ao Municipal”, o cavaquinista e pesquisador Henrique Cazes conta o seguinte:

“(…) quando foram ao escritório da gravadora para a assinatura do
contrato de São Paulo Quatrocentão, Chiquinho [do Acordeom] e Garoto foram indagados sobre o que poderiam gravar do outro lado do 78 RPM. Garoto afirmou na hora: “Do outro lado vamos gravar o Baião do Rouxinol”. Na saída, ao perceber o espanto de Chiquinho que jamais ouvira falar nessa música, Garoto o acalmou: “vamos ter que fazer este baião agora, para gravar amanhã, senão vamos dar carona pra alguém, pois este disco vai vender muito”.

Assim, Garoto gravava São Paulo Quatrocentão e Baião do Rouxinol em 19 de agosto de 1953. Na gravação desta última se destaca o belo trabalho da flauta de Altamiro Carrilho dialogando com o cavaquinho de Garoto.

A história da música Baião do Rouxinol, de Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, é uma daquelas inusitadas cuja veracidade seria constestável se não houvesse registros.

Portanto, é bem provável que a deliciosa história contada por Cazes tenha, de fato, acontecido. Na véspera da gravação, no dia 18 de agosto, Garoto fez a seguinte anotação em seu diário:

“Eu e Chico vamos ao apto de Di Veras. Boa promessa e $500,00″.

Conforme foi comentado nesta série, José Vasconcelos, parceiro habitual de Garoto, fizera a letra para São Paulo Quatrocentão, substituida às pressas pela letra de Avaré. Da mesma forma, foi o próprio José Vasconcelos quem também colocou letra em Baião do Rouxinol, gravada por Neide Fraga em disco Odeon nº 16.629, no dia 14 de janeiro de 1954:

Pra matar a saudade
da gente
vai cantando
meu rouxinol

Canto triste, suave
e dolente
vai cantando
meu rouxinol

A doçura que tem
no cantar
lembra o vento da mata
a soprar

Traz feitiço de amor
pra zombar
dos romances que vivo
a sonhar.

Ouça o Baião do Rouxinol, de Garoto, Chiquinho do Arcordeom e José Vasconcelos, na interpretação de Neide Fraga (clique no botão PLAY abaixo para ouvir e/ou no link “Download” para salvá-la):

São Paulo

O texto a seguir integra a série O cancioneiro de Garoto e possui a autoria de Jorge Mello e revisão e diagramação de Zé Carlos Cipriano (conheça as demais músicas e a proposta da série neste artigo. Esta edição foi publicada hoje, extraordinariamente, em homenagem aos 454 anos da cidade de São Paulo; meu agradecimento ao Jorge pela presteza e rapidez na produção do artigo, a fim não perder a oportunidade da data!):

Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, nasceu em 29 de junho de 1915 em Vila Economisadora, cidade de São Paulo. Apesar de ter vivido uma boa parte de sua vida no Rio de Janeiro, jamais esqueceu de sua cidade natal. Quando em 1932 Cesar Ladeira conclamava a todos os paulistas, fossem homens, mulheres ou até mesmo crianças, em defesa de São Paulo, Garoto prontamente atendera ao chamado!

Ele fazia parte de um grupo de músicos que tocava para amenizar a dor das vítimas do confronto. Foi numa enfermaria, inclusive, que conheceu Laurindo Almeida, que estava se recuperaando de um ferimento.

Garoto (em 13/08/1930) segurando um fuzil como se fosse um banjo - foto: acervo Jorge Mello

No final de dezembro de 1945, mais precisamente no dia 05, Garoto traduziu este amor e admiração por São Paulo em notas musicais que, acopladas aos versos de Haroldo Barbosa, formaram este belo samba intitulado São Paulo.

Nas palavras de Garoto:

“Tempo bom. Vou`a rádio para ensaiar e depois tomo um chopp com Radamés, Zé Mauro e Bittencourt. No programa “Um Milhão de Melodias”, apresento em 1º audição o meu samba São Paulo, com letra de Haroldo Barbosa”.

Esta música foi também apresentada em outro programa da Rádio Nacional, chamado “Canção Romântica”. Lá, acompanhado da orquestra de Lírio Panicali, Francisco Alves interpretou São Paulo, com Garoto ao violão.

A única gravação comercial desta música (Continental) foi feita por Jorge Goulart com a Orquestra Tabajara, de Severino Araújo, a acompanhá-lo.

Olho do planalto
Sinto um sobressalto
Que maravilha
Terra bendita
Ouço de longe
o rumor de um Titã
A seiva forte
na terra palpita

São Paulo, São Paulo
nas legendas douradas do país
A glória é sua história
Bandeirantes nobre perfil
São Paulo és todo Brasil

Pacaembu
Ouro e café
Teu coração
é a Praça da Sé
São Paulo,
minha voz afinal
canta o teu madrigal
simples voz que te diz:
és imortal

Ouro e café
Tanto algodão
Praça da Sé
é o teu coração
São Paulo,
tenho a mão calejada
Fiz no braço da enxada
esta canção por ti

Ouça o samba São Paulo, de Garoto e Haroldo Barbosa, na interpretação de Jorge Goulart (clique no botão PLAY abaixo para ouvir e/ou no link “Download” para salvá-la):

Página 1 de 4123...Última »
porno porno