O texto a seguir integra a série Choros inédios de Garoto e possui a autoria de Jorge Mello e revisão e diagramação de Zé Carlos Cipriano:
Numa das minhas incursões ao centro da cidade do Rio de Janeiro, com objetivo de pesquisar no setor de microfilmagens da Biblioteca Nacional (BN),deparei-me com uma raridade: o disco Carnival In Rio, gravado em Madrid pelo violonista Djalma de Andrade, o Bola Sete, e seu Conjunto. Lá estava ele na barraca do meu amigo Oliveira, que vende discos de vinil na rua Pedro Lessa, ao lado da BN. Ele percebeu minha emoção e riu…”Esse ninguém tem”, disse ele me provocando, “estava aí te esperando!”. Imediatamente peguei o disco e voei para casa, louco para ouvir aquela preciosidade!
Abrindo o disco está o Sonhador de Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, choro aqui apresentado numa forma não ortodoxa, sem a formação típica do regional. Em particular, aprecio muito mais os choros de Garoto executados do modo que fez o conjunto do Bola Sete. Cito como outro exemplo o choro Meditando, mostrado na edição passada.
A gravação original deste choro foi feita em 2 de outubro de 1945 pelo seu autor, tendo o conjunto Bossa Clube a acompanhá-lo. Neste mesmo dia gravaram o choro (também de Garoto) Celestial e acompanharam a cantora Emilinha Borba no samba O Outro Palpite (Garoto e Grande Otelo) e no choro Divagando, autoria de Nelson Miranda e Luiz Bittencourt.
O disco Carnival In Rio, com Bola Sete e seu Conjunto, possui aspectos interessantes. Na sua contracapa é declarado de forma inequívoca o local da gravação – Madrid – muito embora não se faça menção à data desta gravação. Na verdade, em nenhum lugar – capa, contra capa e rótulo do disco – tal data é mencionada. Encontramos no texto da contracapa o roteiro da excursão feita por Bola Sete e Seu Conjunto inicialmente pela América do Sul: Festival Cinematográfico de Punta del Este, em Montevidéu e depois em vários teatros de Buenos Aires, na Rádio Belgrado, no Sunset Club, no Chile (Waldorf) e no Peru (Grill Bolivar) e depois na Europa, especialmente na Espanha, onde se apresentaram com grande êxito na Parilla Rex, em Madrid.
Foi aí, de acordo com o texto, que Fernando J. Montilla contratou Bola Sete e seu conjunto para gravarem este disco lá mesmo. Mas e a data?
Lembrei-me de uma entrevista concedida por Bola Sete ao jornalista Flavio Moreira da Costa, que saiu publicada no “Caderno B” do Jornal do Brasil em 20 de fevereiro de 1973. Tinha a impressão que lá se falava algo sobre aquela excursão e de fato o entrevistado diz o seguinte:
“Tinha uma moreninha que era crooner da Boate Beguin, na Glória. Eu fui convidado para fazer um conjunto e levei ela comigo. Era um talento fabuloso, cantava em várias linguas, mas era de convivência difícil. Tocamos no Drink, no Vogue. Ela se chamava Dolores Duran. Era a época de Bola Sete e Seu Conjunto. Fiz depois uma orquestra para o Baile dos Artistas no Hotel Glória. Recebemos convite para irmos até Buenos Aires, Montevidéu, no Festival de Punta del Este- acho que era 1954. Permanecemos dois meses com muito sucesso. Depois chegamos a fazer uma turnê pela Espanha.”
Tudo parecia se encaixar perfeitamente, de modo a me fazer acreditar que a data da gravação era em torno de 1954. Até o repertório é coerente com esta data! Mesmo não sendo Dolores Duran a cantora que participou (em algumas faixas) da gravação do disco, e sim Therezinha Bittencourt, ainda é possível acreditar naquela data. Interessante é que este disco foi relançado pela Sinter (SLP 1727) em 1958 com o título Bola Sete em Hi-Fi ! (agradeço aqui ao dono do blog Vinyl Maniac por algumas valiosas informações) – recentemente uma discussão sobre esse assunto apareceu também no blog Loronix!

Ouça agora a versão do choro Sonhador, de autoria de Garoto, gravada por Bola sete e seu conjunto (clique no botão PLAY abaixo para ouvir e/ou no link “Download” para salvá-la):



Algumas características técnicas referentes à execução do instrumento nesta peça violonística, alinhadas à intenção temática de Garoto, despertam a atenção dos ouvintes mais atentos.
De todos os grandes programas da Rádio Nacional, “Um Milhão de Melodias” era o maior deles: tinham seus ensaios gravados em discos de alumínio cobertos com acetato, cuja finalidade principal era a de corrigir o posicionamento dos microfones para o intérprete e a orquestra. Com o fim daquela emissora, os acetatos foram empilhados sem muito cuidado e depos transferidos para o Museu da Imagem e do Som.
Parceria única de Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, com Moacir Braga, o samba canção Eu comprei uma ilusão fez par com a valsa 





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