O texto a seguir integra a série O cancioneiro de Garoto, em parceria com Jorge Mello e entrevista realizada por Zé Carlos Cipriano (conheça as demais músicas e a proposta da série neste artigo):
Para uma melhor compreensão do artigo veja também a primeira parte, que fala sobre a versão instrumental original de Lamentos no morro.
Árduo é o desafio para qualquer compositor, mesmo dos bons, em bolar uma letra para uma música instrumental que foi criada e pensada unicamente para esse propósito. Sobretudo quando se trata de uma composição de Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, e uma das mais expressivas do repertório instrumental brasileiro, como Lamentos no morro.
Assim o carioca Gabriel Moura tomou para si esse desafio, tornando-o público em 2006 ao lançar seu primeiro disco solo, Brasis, e gravar na última faixa deste a sua versão letrada, junto com seu parceiro Rogê, do samba de Garoto.
Vindo de uma família de músicos – é sobrinho do clarinetista Paulo Moura – Gabriel, que além de compositor e cantor (participou de vários grupos, entre eles o “Farofa Carioca“, que projetou seu nome, o de Seu Jorge e demais colegas no cenário musical) é também diretor musical em peças teatrais (venceu o Prêmio Shell de Teatro na categoria trilha sonora em 2002), obteve êxito ao criar, através de sua letra, uma paisagem urbana típica da cidade do Rio de Janeiro sob medida para uma música composta há mais de 50 anos atrás, porém atemporal, uma vez que representa de modo tão intenso – mesmo tendo sido ela gerada por um paulista! – a alma carioca.
Em entrevista ao Sovaco de Cobra, Gabriel, fala da idéia e do processo de criação de Lamentos no morro, assim como as intervenções dos demais envolvidos no trabalho, como seu parceiro Rogê, o violonista Zé Paulo Becker, responsável pelo arranjo, e Paulo Moura, pela direção musical:
Zé Carlos Cipriano: Como foi seu primeiro contato com a obra de Garoto?
Gabriel Moura: O meu primeiro contato com a obra de Garoto foi a partir da canção Gente humilde, que o Chico e o Vinícius letraram. Sempre achei linda, tanto a melodia quanto a letra suburbana que eles fizeram e eu sempre tocava ela na noite, quando comecei a tocar em bares ainda adolescente. Lamentos do Morro, fui conhecer anos depois, quando fiz um show com Paulo Moura e Yamandú Costa sobre Baden e o Yamandú fazia a primeira parte dela como introdução para Canto de Ossanha no show. Eu ficava louco com aquilo.
Como foi o processo de criação junto com seu parceiro Rogê para compor a letra?
Um dia, cheguei na casa do Rogê e ele estava com um livro de partituras do Garoto, estudando no violão. Quando ele tocou Lamentos do Morro eu saquei logo que poderiamos fazer uma letra pra ela. Normalmente, fazemos canções em uma tarde de trabalho, já que desenvolvemos uma grande afinidade como parceiros, mas dessa vez não ficamos felizes com o resultado, afinal se tratava de um clássico da música brasileira e tínhamos que ter todo cuidado e respeito. Pelo telefone, diariamente nos falávamos sobre a letra e vibrávamos muito com cada frase que conseguíamos encontrar para cada parte da melodia, vendo a canção se revelar aos poucos. Levamos exatamente um mês pra terminar e nos sentirmos satisfeitos.
Garoto é conhecido por ser um compositor sofisticado, à frente de seu tempo no que se refere à harmonias e arranjos. Foi difícil submeter a sua verve compositora à métrica da melodia de Garoto? A opção em letrar apenas a segunda parte da música foi intencional?
Foi intencional letrar somente a segunda parte pois era ali que eu visualisava uma letra. O engraçado é que a melodia quase que nos dizia quais as palavras que deveríamos usar, mas pra isso era preciso muita atenção da nossa parte e imaginação para que nos transportássemos para o alto de uma laje no morro. Um cachorro latindo no final de tarde, crianças brincando, as luzes da cidade se acendendo aos poucos e uma idéia de saudade dos tempos em que a favela era mais poética e o Rio era mais tranquilo. Um grande amor do passado fechava a idéia de um tempo feliz que passou e ficou na lembrança.
Como foi o processo de criação do arranjo minimalista, porém belo e sob medida, para voz, violão e cuíca? A decisão em respeitar significativamente o arranjo original da peça para violão partiu de Zé Paulo Becker?
O Zé Paulo Becker, violonista excelente que conheci através do Yamandú, já havia gravado ela em um de seus CDs. Ele já chegou no estúdio com ela pronta, “debaixo do dedo” e linda. Paulo Moura, que fez a direção musical e arranjos do meu disco, sugeriu a introdução que cita Olê Olá, do Chico Buarque. Pediu ao Zé que fizesse uma abertura mais lenta pra que fosse valorizada a letra e assim foi feito. Zé Paulo arrasou com seu violão de seis cordas, com a sexta corda afinada em ré. Tocou o arranjo todo, inclusive o solo, de uma vez só, depois de uma ou duas passadas no máximo pra ensaiar. A cuíca minimalista do André Corrêa (do grupo Batuque na Cozinha) foi outra idéia genial do Paulo para ambientar a canção na laje da favela. Era o cachorro latindo ao fundo.
Quando fizemos o pedido de liberação da obra para ser incluída no cd, veio a notícia que me deixou feliz e aliviado da responsabilidade de mexer em algo tão precioso: os cumprimentos e elogios da família do Garoto que adorou a letra e a gravação.
Veja a seguir a letra de Gabriel Moura e Rogê para o samba de Garoto:

De cima da laje no morro
Pensando nos tempos de outrora
Eu vi a cidade antiga
Do Rio que banhou meu coração
Chorei com saudade de você
Ao assistir a auroraA noite já vem apagando
Barracos estão acendendo
Em mim a lembrança dos dias
Que juntos nós bordamos de paixãoEu vou descer pro asfalto
e esquecer a falta que faz
a sua doce companhia
encontrar um novo amor
em pazOuve o lamento
O meu lamento do morro
O meu lamento de amor
Ouça o samba Lamentos no morro, de Garoto, em versão cantada com letra de Gabriel Moura e Rogê no disco Brasis (2006), na interpretação de Gabriel Moura, acompanhado por Zé Paulo Becker ao violão e André Corrêa na cuíca (clique no botão PLAY abaixo para ouvir e/ou no link “Download” para salvá-la):
Algumas características técnicas referentes à execução do instrumento nesta peça violonística, alinhadas à intenção temática de Garoto, despertam a atenção dos ouvintes mais atentos.
De todos os grandes programas da Rádio Nacional, “Um Milhão de Melodias” era o maior deles: tinham seus ensaios gravados em discos de alumínio cobertos com acetato, cuja finalidade principal era a de corrigir o posicionamento dos microfones para o intérprete e a orquestra. Com o fim daquela emissora, os acetatos foram empilhados sem muito cuidado e depos transferidos para o Museu da Imagem e do Som.
Parceria única de Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, com Moacir Braga, o samba canção Eu comprei uma ilusão fez par com a valsa 



O ressurgimento do Clube do Samba se deu através da iniciativa do músico Anibal Augusto Sardinha, o Garoto, e sua esposa Cecy, em março de 1955.

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