Ativista cultural, em suas múltiplas atuações na Funarte (e também como idealizadora de projetos, como o filme “Raízes do Brasil”, sobre o historiador Sérgio Buarque), a cantora Ana de Hollanda ainda encontra tempo para se desdobrar numa compositora de primeira, letrista antes bissexta e agora definitivamente comprometida com o ofício.
A arte pode ser admirada no excelente “Só na canção” (CPC-UMES), recém-lançamento que traz composições da artista em parcerias com Novelli, Helvius Vilela, Nivaldo Ornelas, Lucina, Alexandre de la Peña, Cláudio Guimarães e Jards Macalé, esse seu parceiro de mais tempo (no último CD, “Filme”, ambos já haviam experimentado o processo de criação a dois, com bons resultados). Aliás, nesse mesmo disco anterior, Ana já enveredara como letrista em mais duas canções – Contra mim, em parceria com Kléber Costa, e a belíssima Girando sob a Tempestade (só de sua autoria).
Com a delicadeza de sua interpretação, a cantora-compositora se coloca a serviço de suas próprias canções, explorando nuances melódicas confluentes com a poética de cada letra, uma mais bela que a outra, expondo um trabalho equilibrado e conceitualmente elaborado. Antes de tudo, “Só na Canção” consolida a presença definitiva de Ana em nosso cancioneiro popular, rompendo com a timidez que a própria artista sempre teve, preservando-se em realizar trabalhos autênticos – talvez por isso, em décadas de carreira, Ana só tenha gravado quatro discos, o suficiente para sedimentar uma trajetória ímpar, de uma cantora subjetiva e cuja introspecção condiciona as palavras de sua poesia.
Sob a batuta de Maurício Carrilho e Helvius Vilela (que também assina os arranjos), as 14 canções do disco fazem o ouvinte navegar em mares pouco explorados nos dias de hoje: arranjos sofisticados, no empenho de notórios e excelentes músicos, dão forma às expressivas composições, preservando o fio condutor do trabalho centrado na “canção popular”.
“Melodias que de leve nos acolherão”, verso de Choro por um Silêncio (letra e música de Ana), sentencia a tônica do disco, que atinge ápices de beleza sincera em temas como Alegria de Ser (com Nivaldo Ornelas), Que me tira o juizo (com Helvius Vilela, esse ainda parceiro em Estrada da Vida, na qual embeleza a toada com sua voz), e a dilacerante Beija-flor, colibri (com Novelli), na qual a densidade poética da letrista nos remete, inevitavelmente, ao universo de poetas como Cecília Meireles e Mário Quintana (ouça a canção a seguir):
“Beija-flor, beija-flor
pode chegar.
Bata as asas, flutue-se no ar…
Careço de cores, sabores de mel,
também não perfumo
quem zanza no céu.
Beija-flor, colibri,
venha dizer como pode sugar
Um bem-querer.
E faz com carícias pra não ferir
trazendo notícias de longe daqui…
E o seu colorido, de onde vem?
Se o verde ocultou-se ali também?
Me abra o caminho que se emaranhou
em minha cegueira, de tanto torpor…
Me bique com a seiva da velha buri,
Sem coreografia… oh, meu colibri!”
Como argumenta a crítica Helene Cixous:
“(…) a criação contemporânea é uma grande colcha de retalhos na qual referências estéticas, de modo espontâneo e inconsciente, determinam o fulcro resultante do processo”.
E isso, de fato, ocorre com a letra-poesia de Ana de Hollanda (ou com sua poesia-letra de canção) que, ao se “casar” com a música de seus parceiros, trazem à luz a canção brasileira propriamente dita, em sua verdade absoluta e transparente.
Se a saudade da “velha buri”, emergida através do bater de asas de um beija-flor,colibri, evoca uma nostalgia lúdica dos tempos de buritizais e jardins idílicos, por outro lado o objeto da “falta” metaforicamente remete à rua onde a menina Ana passara a infância – é quando a arte serve de espaço para o discurso da memória e da experiência. Efeito paralelo ocorre em Canção para Aninha, em parceria com Macalé, balada de ninar para sua neta (“Cada vez que ela olha pra mim, eu respiro, eu bendigo, eu afago esse ser-alecrim”), e em Minha criança, com Nivaldo Ornelas, na qual a poeta letrista brinca com sua própria criança, foz anímica que, quem sabe, alimenta a arista em seu labor poético.
E é de parceria com o exímio Novelli que Ana ainda entoa Novo Amigo (também gravada pela cantora Simone Guimarães), doída canção à flor da pele, daquelas que a gente sente falta em tempos atuais, e que em Só nas Canções surgem como pérolas em generosa oferenda. A “canção da vida”, sim, porque a letrista deixa-se novamente levar pelo empírico que fomenta sua malha de poemas, permitindo que a canção “aconteça”.
“Tá tudo certo, eu já sabia,
Não vou mais me demorar…
Venceu o tempo, porém permita
Que eu me desligue um pouco mais devagar.
Só um abraço, meu novo amigo
Em condição singular…
Faz muito frio, é tão doído
Não fale nada que vai me machucar.
Como cinema, passam correndo
imagens que eu gravei
de nós dois…”
Mas a festança se expressa no reencontro de Ana com as irmãs Cristina Buarque (veterana sambista) e Piií (fotógrafa e excelente cantora, embora bissexta em gravações), em vocais no fox Balada (parceria com Macalé):
“Solto um vibrato, passo pra falsete, faço um Elvis sem hesitação…”.
Alegria transborda nesse memorável registro, com direito à afetiva participação vocal de Helvius Vilela.
Desdobramentos da tônica amorosa, em nuances diversas, surgem ressaltadas em Por si Só (com Ornelas), Tropeço (com de la Penã), Jogos de Azar (com Lucina) e Eu e você (com Vilela), e ainda celebram o ofício do “ser cancionista” na meta-canção que nomeia o disco (em parceria com Cláudio Guimarães):
“Uma canção.
Tudo acaba em uma canção
para se repetir em outra voz,
outra vez, a emoção;
E mesmo um grande amor
quando acaba pequeno, o amor,
é melhor se encantar…”
E é (en)cantando que Ana de Hollanda cumpre sua missão, deixando-se levar levemente para outras estradas, novos ventos, com “pedras entocadas nos caminhos”, mas se reconhecendo em nuvens esfumaçadas, espelhos translúcidos de sua alma, trilhas de caminhos sinuosos, encontrando um novo rumo:
“um novo horizonte
içou meu olhar…
para alegria de ser
- uma pagina branca a se escrever.”
Sem dúvidas, um dos mais belos discos autorais deste ano.
Fonte da imagem: Divulgação (Paulo de Miranda)





Belíssima matéria, Heron. É exatamente assim que chega em mim a fascinante obra de Ana de Hollanda, que nos presenteia com mais esse álbum.
Abs,
Solange Castro
que maravilha: doce, puro, lindo, lindo !!! deu prá ter um gostinho da qualidade. agora fiquei com gostinho de quero ouvir tudo.
excelente matéria também!
boa sorte, parabéns.
Helena
Maravilhosa música, maravilhosa Ana. Como faço pra comprar o CD?
Danilo Torres
Não páro de ouvir o CD, aliás, aqui em casa só se ouvem a Ana, a Cristina e a Miúcha!!! Salve as belezas desse meu Brasil!
Hevelyn
É de fada o cantar da Ana.
PARABÉNS PELA EXCELENTE MATÉRIA E PELO LANÇAMENTO DO NOVO CD!!!
Lindo disco,agradável, bonito, delicado como a autora. Canções que emocionam e uma interpretação altamente sofisticada onde às vezes a gente se sente no céu. Inigualável, a voz de Ana de Hollanda> Parabéns.
Rosa Maria Araujo
Estou realmente curioso prá escutar essas músicas. Preciso saber onde posso encontrar o cd e quando vai ser o lançamento aqui em São Paulo. Gostei imensamente dessas letras incríveis e poéticas.
Nossa, que lindo. E é tão bom quando artistas do quilate de Ana se cercam de outros artistas brilhantes como Maurício Carrilho, por exemplo. Já é o disco do ano, com certeza. Parabéns pelo texto, Heron!
Saudades….
Gracias Ana, pelos lindos momentos que você acrescenta a canção brasileira, com Só na Canção. Remete a velhas canções
como Azulão, Serra da Boa Esperança, Carinhoso e tantas mais
Mata um pouco da saudade do lirismo barroco e sensual brasileiro, tão nosso. Recorda um pouco, o Cinema Novo
dos anos 60. Glauber, Joaquim Pedro, Walter Lima, Cacá …
Que misto de felicidade, emoção e esperança tê-la como
Ministra da Cultura do nosso país. Benvinda,Abraços,Roberto.
Estou encantado com sua nomeação para o ministério e de poder te rever tão bonita.
Fui dono da POLYGARANTIA na Av.Sto. Amaro e tive a honra de tê-la como cliente.
Parabens
Grande beijo
Hebron