Como produtor e diretor de teatro e shows de música, ainda com uma curta carreira (mas considerável experiência de pesquisa e convívio com grandes mestres de diversas áreas artísticas), sempre anotei e gravei tudo o que me chegava aos ouvidos e ao coração, fosse em forma de palavra, canção, ou até mesmo rabiscos em mesa de bar, pequenas confissões em forma de versos-garatujas, quase prenúncio de canções que jamais chegariam a se consolidar – mas, sim, verdadeiras declarações de amor que formam meu grande inventário afetivo particular.
Pensando nessas peripécias cordiais, e de como algumas figuras definitivamente fincam suas raizes em nossos corações, lembro-me de Cristina Buarque, ou a Dona Maria, como eu a chamo, voz que desde minha infância me conduz a gostar de música, e me ensinou a compreender que a vida pode sim ser traduzida em canto, especialmente quando esse canto tem sua essência genuína e anímica, conectada a algo que está além de qualquer classificação estilística ou rótulo.
Como um dia disse Cartola – e isso eu ouvi de Sérgio Cabral – “Cristina é cantora pra compositor”, e não por acaso é a cantora preferida de Paulo Vanzolini (autor de Ronda, Volta por Cima, e ouros clássicos), que a introduziu “na vida” de intérprete quando a menina tinha apenas 16 anos. Contrariando a mãe, Dona Maria Amélia, Vanzolini insistiu, e conseguiu que Cristina gravasse seu samba Chorava no meio da Rua, primeiro registro fonográfico da cantora, ponto de partida para uma carreira que já atravessa mais de quatro décadas.
Em 1968, dividiu com o irmão, Chico Buarque, o dueto Sem Fantasia, tema da peça Roda Viva, mas só seis anos depois, sob a batuta de Fernando Faro, gravou seu primeiro LP, cuja faixa Quantas Lágrimas alcançou sucesso nacional, apresentando ao Brasil um compositor da Velha Guarda da Portela, Manacéa, de quem a cantora gravaria mais sambas.
Resgate pode ser uma palavra-chave para todo o processo criativo de Cristina (inclusive, título de um de seus raros CDs, lançado no Japão, em 1994).
Atenta ao grande inventário de nossa música popular, cuja amplitude está fora do alcance do povo, a sambista atua também como pesquisadora, gravando sempre, quando possível, raridades de Noel Rosa, Wilson Batista (compositores que foram temas de 3 discos, dois deles com o violonista Henrique Cazes), Ismael Silva, Valzinho, Haroldo Lobo, além, é claro, de compositores de sua amada Portela – Chico Santana, Alberto Lonato, Mijinha, entre outros que tiveram seus sambas interpretados por ela.
Numa ocasião, conversando rapidamente com o pesquisador José Ramos Tinhorão (a mim apresentando pelo produtor José Luiz Herência), perguntei-lhe sobre o que ele achava de Cristina. Como sempre, foi enfático: “é uma menina corajosa… gravar aquele bando de desconhecidos num disco de carreira, tem que ter muito peito”. Tinhorão, em sua atemporalidade, certamente se referia ao clássico Prato e Faca, também produzido por Faro, em 1976, trabalho que apresentava vários sambas de autores Portelenses.
Não procuro, neste artigo, analisar o trabalho de Cristina, e muito menos fazer uma abordagem cronológica de sua obra, pois estas informações são acessíveis em enciclopédias e sites sobre música brasileira.
Meu desejo é registrar, sim, as impressões pessoais e profissionais que tive e tenho, por conta de alguns trabalhos teatrais em que nos encontramos, e nos quais pudemos semear e cultivar uma amizade pela qual tenho grande satisfação.
Nestes últimos tempos, Cristina tem gravado bastante: fez um disco lindo com os meninos do Terreiro Grande, grupo de jovens paulistas atentos à preservação do samba tradicional (como nas “velhas guardas”); tem participado de vários projetos temáticos (como os tributos a Paulo Vanzolini, Mário Lago e Délcio Carvalho), e participa, ainda este ano, de um CD duplo sobre a obra de Mauro Duarte, um de seus principais parceiros artísticos, com quem, na década de 80, gravou um raro LP, disputadíssimo por colecionadores, e ainda inédito em CD.
Cristina é mãe de cinco filhos, foi casada com o grande produtor Homero Ferreira (pai de seus filhos), e hoje vive no Rio, cidade que adotou como sua, embora paulistana de nascimento.
Ah, ela adora gatos, vive rodeada por eles, e quando anda pelas ruas, os felinos se atraem por ela, que logo lhes responde com um miado carinhoso (em acordes de samba, é claro…).

Cristina Buarque, por Marco Aurélio Olimpio
Ouça a seguir, em gravação inédita, Cristina cantando o samba Os Lírios do Campo, de Candeia, acompanhada pelo conjunto “Dobrando a Esquina” (clique no botão PLAY abaixo para ouvir e/ou no link “Download” para salvá-la):





Olá!
Cheguei aqui através do Hedonismos… gosto muito de MPB e do bom samba, embora não conheça tanto… então, é óbvio que adorei seu blog!
Posso vir aqui mais vezes?
Abraços!
Marília,
Obrigado pela visita e seja bem-vinda a este espaço musical!
Abraços
Zé Carlos
Lindo texto, Heron. Adorei!
Piramidal…tudo muito sincero!
obrigado
abraçsonoros
namaste
Boa tarde!
Poderia, por gentileza, enviar-me uma cópia dessa música “Os Lírios” em mp3 com a Cristina Buarque e Dobrando a Esquina (Uma crônica), pois não consegui fazer o download.
Parabéns por essa publicação, realmente a música é maravilhosa.
Obrigada.
Su