O cancioneiro de Garoto

Garoto, em foto de 1950O Sovaco de Cobra inicia uma série de artigos que irá investigar uma faceta pouco conhecida de Garoto, nome artístico do histórico instrumentista virtuoso brasileiro Aníbal Augusto Sardinha: o compositor de melodias baseadas nos mais diversos ritmos (sambas, boleros, fox, xotes, entre outros) que ganharam letra de vários parceiros e tornaram, muitas delas, sucessos que marcaram diversas épocas do cenário musical brasileiro.

Paulistano nascido em 1915, filho de portugueses, este precoce músico que tão cedo, desde criança, manifestou seu apreço pelos instrumentos de cordas dedilhadas – violão, violão tenor, bandolim, cavaquinho, guitarra havaiana e banjo, apenas entre os mais conhecidos – sedimentou, através de sua concepção harmônica e sofisticação musical à frente de seu tempo, uma obra que compõe o alicerce da música popular brasileira, que até hoje norteia os caminhos de tantos músicos das mais diversas épocas e estilos no país.

É reconhecida, assim, sua importância como compositor instrumental através da escola de violão que fundou por meio da diversidade e complexidade de peças para o instrumento, cuja difusão se deu, sobretudo, por meio do regaste realizado pela pesquisa de Paulo Bellinati, que a mapeou e a registrou de forma definitiva no projeto The Guitar Works of Garoto, além da variedade de idéias inovadoras no âmbito camerístico, registradas nas gravações do Trio Surdina.

A face cancionista de Garoto

Entretanto, é sabido também que Garoto, devido à sua intensa convivência e atuação no meio artístico musical das décadas de 30 a 50, teve uma produção cancionista tão rica e produtiva quanto a violonistíca.

Entre seus parceiros letristas figuram David Nasser, Luiz Bittencourt, Haroldo Barbosa, Alberto Ribeiro, Manuel Bandeira e José Vasconcelos (este último foi o parceiro mais presente em quantidade de músicas), além de parceiros póstumos, como Chico Buarque e Vinícius de Moraes (que criaram a famosa versão de Gente humilde) e Gabriel Moura e Rogê (que puseram letra numa recente gravação cantada de Lamentos no morro).

Justamente essa produção escusa de canções cantadas de Garoto é o cerne da série, que será semanal – começando com o dobrado São Paulo quatrocentão, de 1953 – e irá fornecer a história de cada uma, sua respectiva letra, informações sobre seus parceiros e todas as referências conhecidas até hoje a respeito, além de oferecer o áudio integral da mesma no rodapé do artigo.

Das mais de 50 músicas previstas para a composição da série O cancioneiro de Garoto, algumas gravações aqui publicadas virão de registros comerciais fora de catálogo (disponíveis para consulta em acervos digitais como o Instituto Moreira Salles), de gravações inéditas e não comerciais e, finalmente, de gravações produzidas especialmente para esta série, com canções totalmente inéditas que não possuem nenhum registro sonoro ainda.

Durante toda a série, a fonte principal de consulta, opiniões, informações e material inédito será fornecida pelo professor, músico e pesquisador carioca Jorge Mello, uma das principais e atuais referências sobre a obra de Garoto (leia mais sobre ele na segunda parte deste artigo).

Acompanhe a partir de agora, neste artigo, a lista de músicas apresentadas (esta lista será atualizada sempre que uma nova resenha for publicada):

Assim que esta série terminar, será criado um site especial sobre ela dentro do próprio Sovaco de Cobra. Portanto, acompanhe a partir de agora: toda quinta-feira uma música cantada de Garoto!

Quem é Jorge Mello?

Jorge MelloInstrumentista (violonista), compositor e professor universitário, Jorge Carvalho de Mello, nascido no Rio de Janeiro em 1949, assistia quando criança aos saraus organizados em casa por seu pai, freqüentados por músicos como Tia Amélia e Luperce Miranda, entre outros amigos da família.

Assim, influenciado pelas memórias sonoras da infância, acabou se aproximando cada vez mais da música – estudou violão com Luiz Octávio Braga e Billy Teixeira e composição com Ian Guest – embora tenha se tornado professor universitário, lecionando física na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

No ambiente acadêmico de sua universidade, Jorge se tornou um ativista e promotor de várias iniciativas ligadas à música, organizando ao longo da década de 90 eventos, como os projetos de shows “Terças musicais” e “Num cantinho um violão”.

Mais tarde prosseguiu suas atividades de produção musical organizando o show “Encontros” com a cantora Geny Martins no Rio de Janeiro, fazendo o programa semanal “Show do Rio”, transmitido pela Rádio Roquette Pinto (RJ), ao lado de Maurício Figueiredo, Guinga e Tião Neto, lançando seu CD autoral “Voz e silêncio” com 10 músicas suas na voz da cantora Myrian Eduardo e com participações de Guinga e Carlos Malta, além do show “As canções de Garoto e Bonfá”, apresentando-se ao lado de Daniel Miranda.

Foi nessa época também que Jorge deu início à sua pesquisa intitulada “O violão brasileiro”, com objetivo de estudar a fundo a evolução do instrumento e seu universo durante todo o século XX no Brasil, levantando acervos e realizando entrevistas com inúmeros violonistas do país. Conduziu também uma pesquisa sobre a obra do pianista e compositor Newton Mendonça, que posteriormente virou o livro “Caminhos cruzados” em parceria com Marcelo Câmara.

A entrada de Garoto na vida de Jorge

Jorge Mello iniciou sua pesquisa sobre a vida e obra de Garoto simultaneamente à da história do violão brasileiro.

Entrevistou por duas vezes o pesquisador Ronoel Simões e músicos como Baden Powell, Paulinho Nogueira, Paulo Belinatti, Marco Pereira, Zé Menezes, Sebastiao Tapajós, Turibio Santos, Egberto Gismonti, Henrique Cazes e Guinga, dentre outros. Familiares e pessoas que conviveram com Garoto tambem foram entrevistados: Dona Cecy (esposa), Antonio Augusto Sardinha (filho), Zé Vasconcelos, Badeco (ex-integrante do conjunto vocal Os Cariocas), Fafá Lemos, Billy Blanco e Candinho.

Pesquisas detalhadas também foram feitas no setor de música da Biblioteca Nacional, buscando gravações e partituras, e no setor de microfilmagens, onde jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo foram lidos dia a dia durante o periodo de 1915 a 1955: foi um árduo trabalho, onde todas as informações pertinentes foram anotadas.

No Museu da Imagem de do Som, Jorge Mello pesquisou nos acervos Almirante e Jacob do Bandolim, e no acervo da Rádio Nacional ali existente, através da cópia de fitas de apresentações de Garoto nos programas radiofônicos daquela emissora.

Várias cópias de arranjos para orquestra também foram feitas. Além disso, graças a generosidade de Dona Cecy, Jorge Mello escaneou os álbuns de fotografias e de recortes organizado pelo próprio Garoto. Como se não bastasse, uma mala com vários cadernos de música e com muitos arranjos para orquestra feitos pór Garoto, além de sete agendas, dos anos de 1944/45/46 e 51/52/53 e 54 foram encontradas. Discos 78 rpm , LPs raros e literatura relacionada a Garoto foram adquiridos ao longo dos anos, formando um dos mais completos acervos sobre a vida e obra do compositor.

42 comentários em “O cancioneiro de Garoto”
  1. Un trabajo que produce una gran admiración, respeto e interés el que realiza Jorge Mello en éste artículo. En Argentina existe un público numeroso que gusta de la historia y música brasilera, si vc me autoriza eu enviaré a un grupo de gente músicos éstos artículos que serán de sumo interés para ellos.Cariños. Carmen

  2. Jorge e Zé Carlos, você estão de parabéns por esta série única. Quanto valor ela tem pelas fotos raríssimas, gravações ainda mais raras, e texto muito bem produzidos. Obrigado pelo trabalho que vocês têm feito.
    Aproveito para dar uma sugestão: vocês poderiam colocar nesta página principal os links para o adendo do São Paulo Quatrocentão, e os três posts (até o momento) do Trio Sem Nome, por fazerem referência ao Garoto.

    Um grande abraço,
    Alexandre

  3. Oi Zé Carlos. Tem uns links errados aí pros artigos, amigo. “Vivo Sonhando” e “O outro palpite” foram os que eu vi que apontam pra lugares diferentes.
    Abraço

  4. Obrigado pelo aviso, Bisdré, já estão corrigidos. Abraços!

  5. Jorge, parabéns pelo belo trabalho.
    Agradeço pelas informações fornecidas
    grande abraço
    e sucesso

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