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Encantador (1ª Parte: versão do manuscrito)

O texto a seguir faz parte da série Raras de Ernesto Nazareth e possui a autoria de Alexandre Dias e revisão e diagramação de Zé Carlos Cipriano (conheça as demais músicas e a proposta da série neste artigo):

Uma iminente dubiedade acompanha Encantador, tango brasileiro composto por Ernesto Nazareth: qual das duas versões conhecidas da peça (uma da década de 20, manuscrita, e a outra editada nos anos 60) é a oficial, segundo a concepção de seu autor?

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fonte da imagem:A.V. Photography

Um tango com duas versões

Embora a primeira edição do tango ainda não tenha sido localizada (não está presente na Bibliteca Nacional, nem foi encontrada em acervos de colecionadores até o momento), é provável que ela tenha sido publicada no ano de 1927, pelo seguinte: na edição, de 1968, da segunda versão do tango [que será posteriormente abordada na segunda parte deste artigo] consta a seguinte informação, no rodapé:

Copyright © 1968 by Editôra Arthur Napoleão Ltda. – Rio de Janeiro.
Copyright © 1927 by Sampaio Araújo & Cia. (Casa Arthur Napoleão) – Rio de Janeiro.

Dessa forma, é possível que ela tenha sido composta de fato no final da década de 20, pois, além de no primeiro copyright constar a data 1927, a primeira gravação de Encantador foi lançada em 1928, pela Simão Nacional Orquestra (78-RPM Parlophon 12.804-b), com base na versão do manuscrito.

Já a segunda versão de Encantador, publicada em 1968, não corresponde ao manuscrito integralmente. Na realidade, apenas a primeira parte é comum às duas versões. Curiosamente, como foi descoberto pelo biógrafo Luiz Antonio de Almeida, a terceira parte da edição impressa é equivalente à quarta parte de Fetiço, outro tango nazarethiano (ainda assim, a segunda parte parece ser original a esta versão, que não consta no manuscrito). Contudo, cria-se uma suspeita em torno da legitimidade desta edição, já que nela aparece a dedicatória “Dedicado a Louis Moreau Gottschalk” (que não existia no manuscrito). Outra suspeita é o fato de a dedicatória não conter “à memória de“, como habitualmente se fazia para pessoas que já haviam falecido (Gottschalk morrera em 1869).

Além da gravação de 1928, há apenas outro registro comercial, feito pelo pianista norte americano Paul Posnak no CD Ernesto Nazareth Tangos (Cambria Master Recordings CD-1152), gravado em 2003 e lançado em 2005; no CD o título da peça consta somente como “Tango Brasileiro”.

No entanto, esta gravação foi baseada não no manuscrito, mas na edição impressa, com a segunda e terceira parte diferentes. Se esta partitura chegou a ser deveras impressa em 1927, com todas divergências inclusas em relação ao manuscrito (como a dedicatória e a segunda e terceira partes distintas), fica difícil imaginar que tenha sido ela publicada sem o consentimento do autor, que na época ainda estava vivo e continuava em plena atividade musical, tanto como compositor e pianista.

É incompreensível, porém, que as segunda e terceira partes do manuscrito, tão originais e bem trabalhadas, tenham sido gratuitamente excluídas.

O registro de Nazareth na SBAT

Depois que se associou à SBAT (Sociedade Brasileira de Autores), Ernesto Nazareth passou a receber mensalmente algum dinheiro referente a execuções públicas de suas peças. O biógrafo Luiz Antonio de Almeida observou que no primeiro borderô, referente ao mês de setembro (embora datado de 25 de outubro), constava o nome da peça Encantador. Assim, Luiz Antonio especula o seguinte:

Se as músicas tocadas, quatro no Bar Brahma e uma no Cine Batuta, ainda não tinham sido impressas, como explicar o fato de alguém tê-las executado? Daí, acredito que fora o próprio compositor quem as interpretara. Ou seja: Nazareth continuava se apresentando em locais públicos.

No entanto, é curioso que um músico pague para executar suas próprias peças, para depois receber o dinheiro pela sua execução.

A sombria mão esquerda melódica

Um certo ar de mistério surge ao ouvir pela primeira vez Encantador, cuja estrutura é A-BB-A-CC-A, e não se refere à confusão de suas versões.

A primeira parte, no raro tom de si bemol meno, possui uma melodia sombria realizada inteiramente pela mão esquerda, tal como ocorre nos tangos Tenebroso e Odeon, enquanto a mão direita pontua o ritmo com acordes sincopados.

Na segunda parte (cujo desenho do início lembra o Corta-Jaca da Chiquinha Gonzaga, embora o intervalo melódico seja diferente), a mão direita assume desta vez a melodia, fazendo fazendo saltos que a cada final de frase são intercalados por respostas na mão esquerda, com oitavas deslizando dois semitons para cima ou para baixo, resultando em um envolvente diálogo entre as duas mãos.

Por último, o começo da terceira parte é marcado por acordes na mão direita acompanhados por baixos descendentes na esquerda, além de acordes de dominante com quinta diminuta (baixo na quinta diminuta, inclusive), recurso utilizado em outras peças. Já na metade dela, amplos saltos na mão esquerda formam a base para acordes ascendentes na direita, o que demanda reflexo do pianista para se tocar a tempo. No final há uma curiosa seqüência de quartas e quintas paralelas, pouco comuns na obra de Nazareth.

Ouça o tango brasileiro Encantador de Ernesto Nazareth, na interpretação de Alexandre Dias (clique no botão PLAY abaixo para ouvir e/ou no link “Download” para salvá-la. Atenção: caso a gravação não esteja sendo reproduzida corretamente, acesse o site da Piano Society, que contém todas as gravações da série disponíveis para download):

11 comentários em “Encantador (1ª Parte: versão do manuscrito)”
  1. Os autores do texto nos trazem informações interessantes dessa encantadora composição, com sua melodia sombria executada pela “mano sinistra”, na tonalidade de Si bemol menor. Ouvir o tango brasileiro Encantador de Ernesto Nazareth, é realmente encantador! Obrigado Zé Carlos Cipriano e parabéns pela excelente interpretação, Alexandre.

    Gostaria de informar que encontrei no Catálogo de Partituras da Biblioteca Nacional duas partituras do tango Encantador. A primeira partitura é uma edição para piano solo, com 4 páginas, feita em 1998 para o projeto MIDI, implementado pela Divisão de Música (DIMAS) daquela fundação. A segunda partitura encontrada é um autógrafo, com 4 páginas, sem data, que foi doado à FBN por Eulina Nazareth, filha do compositor.

    Um grande abraço

    Jayme Luna

    http://score.epartitura.com

  2. Prezado Jayme,
    Obrigado por estar acompanhando a série, esse feedback é muito importante para nós.

    Os dois registros que você encontrou na Biblioteca Nacional referentes a esta obra são na verdade o mesmo: já que a versão feita para midi (programa Encore) foi digitada a partir do manuscrito, como aliás foi feito com todos os arquivos encore da coleção Nazareth, da BN.

    Aparentemente eles não têm a versão impressa, da Fermata. Essa está em um álbum de capa verde que creio ainda estar à venda hoje…

    Na semana que vem colocaremos a gravação da versão impressa, aí vocês poderão comparar.

    Um grande abraço,
    Alexandre

  3. Gostei muito do tango “Encantador”. Sua interpretação está ótima
    sem exagerar no andamento, dinâmica boa e rítmo impecaval. Parabéns!!

  4. Obrigado José Henrique!

    Um abraço

  5. Tudo o que é de Nazareth é me muito caro pois desde criança aprendi a apreciar a boa música e, em especial, a de piano, que amo. Tenho 72 anos e me lembro de minhas tias tocando Nazareth.
    O Tango “Encantador” evoca bem o espírito da época da música brasileira – que não pode ficar no olvido – nossa juventude precisa conhecer este mestre do Choro, do Tango e da Valsa.
    Gostaria de ficar a tarde toda escutanto você tocar Nazareth, pena que é apenas pela internet. Se há um CD seu tocando Nazareth gostaria de adquiri-lo.
    Poe enquanto, obrigado pela boa música.

  6. Oi Newton,
    Muito obrigado pela força. Os seus comentários, e de todos os leitores, que vêm acompanhando, são importantes pra gente. É muito bom saber que você está gostando de ouvir esse lado da obra do Nazareth que quase ninguém conhece.

    Eu não tenho nenhum CD comercial gravado até o momento, quem sabe no futuro. Você pode baixar as músicas para seu computador, clicando em “download”, logo abaixo do play. Isso permitirá que você ouça as músicas sem estar na internet.

    Um grande abraço,
    Alexandre

  7. Olá Alexandre,

    Na minha opinião a gravação que você apresentou na primeira parte deste artigo, e que foi baseada no manuscrito da década de 20, é a mais bonita. O manuscrito de Encantador, com as segunda e terceira partes tão originais e bem trabalhadas, parece-me mais o estilo nazarethiano.

    Um abraço e obrigado pela série.

    Jayme Filho

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