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Bicyclette-Club

O texto a seguir faz parte da série Raras de Ernesto Nazareth e possui a autoria de Alexandre Dias e revisão e diagramação de Zé Carlos Cipriano (conheça as demais músicas e a proposta da série neste artigo):

Em 1899, Ernesto Nazareth compôs Bicyclette-Club, tango dedicado à “Directoria do Bicyclette-Club”, associação que congregava diversos ciclistas na cidade do Rio de Janeiro. O compositor retratou essa atividade regular do dia-a-dia carioca: andar de bicicleta, hábito muito popular na capital federal no final do século XIX. Assim atesta o biógrafo Luiz Antonio de Almeida:

Fonta de imagem: Flickr - http://flickr.com/photos/21096356@N00/1259004505/“O carioca, interessado em desvencilhar-se do seu provincianismo crônico, estava sempre disposto a adotar modismos europeus, fossem quais fossem. Um deles era andar de bicicleta pelos principais parques da cidade: o Campo de Sant`Anna, o de São Christóvão e o Passeio Público. Alguns ciclistas associavam-se em pequenos clubs, com objetivos voltados sempre à organização de passeios mais longos, piqueniques e, até, corridas.”

Esta peça nazarethiana possui como única gravação comercial aquela feita por Dilermando Reis em violão solo no LP Homenagem a Ernesto Nazareth (Continental SLP 10116) de 1973. Portanto, o tango permanece inédito em seu original para piano solo assim como em CD.

Tango com letra de Catullo?

Há a possibilidade de que este tango tenha ganhado uma letra. Segundo investigação de Luiz Antonio de Almeida, o poeta Catullo da Paixão Cearense, que possuía o questionável hábito de letrar músicas e colocar novos títulos às vezes sem o consentimento do autor (e até mesmo não o citando, como aconteceu com algumas músicas do violonista João Pernambuco), publicou em um de seus livros de poesias e letras uma página contendo versos para uma música com o título “Teu Rosto”. Em seu rodapé consta: “polka Jockey Club, de Nazareth”.

Embora não exista nenhuma música do pianista com esse nome, os títulos que mais se aproximariam por intersessão de palavras são a valsa Elite-Club e o tango Bicyclette-Club. Mesmo nenhuma das duas não sendo do gênero polca, existe a possibilidade de que Bicyclette-Club seja a referida peça letrada por Catullo, como especula Luiz Antonio de Almeida:

“(…) E aproveitando-se da popularidade alcançada com o “tango” Bicyclette-Club, Catullo da Paixão Cearense acrescentou-lhe, mais tarde, letra e, conseqüentemente, um segundo título: Teu rosto. Porém, ao publicar seus versos em livro, estes saíram com a seguinte observação em nota de rodapé: “polka Jockey Club, de Nazareth”. Acredito que tal descuido (pois não é “polka” e nem se chama “Jockey Club”) tenha contribuído para levar, por um século, esse primor da arte “catulense” ao total descaso”.

Esta é uma hipótese plausível, porém que ainda necessita de confirmação com base em outros dados, pois pode ser que a confusão tenha ocorrido meramente na hora de citar nome do autor da música, por exemplo. Como se pode constatar na letra transcrita a seguir, os versos da primeira parte se encaixam perfeitamente com a música, os da segunda com algum esforço, e os da terceira com alguma imaginação:

I Parte

Tu não sabes quais são minhas preces, quando me apareces meigamente santa!
Canta a lágrima do meu desgosto quando ao ver teu rosto – sacrossanta cruz.
Ele encanta, me seduz, fascina! Osculá-lo almejo! Sensação divina!
Vem! Consente que eu, virgineamente, guarde um simples beijo nesse altar de luz.

Teus olhinhos são dois passarinhos dolorosamente beliscando a gente!
Beija-flores que nas minhas dores vêm beber o sangue desse meu sofrer.
Neste pobre coração magoado, todo beliscado nos azuis refolhos,
vêm teus olhos a sorrir, tristonhos, nos meus tristes sonhos, nos meus ais bulir.

II Parte

Basta qu`eu ouça o teu falar, para uma estrela em mim… brilhar!…
Eu ouço o mar e a voz dos céus, a voz queixosa de uma rosa, orando a Deus!
Minh`alma, louca, por te amar, enche-me a boca a te escutar!
E quando um beijo vou roubar, foge a tua boca, para não m`o dar.

Não sei por que a minha dor, sente se falas tal condão,
que se transmuda numa flor e logo, em flores, a comprimir meu coração!!
Vendo-te bela e meiga, assim, fico com pena até de mim!
E quando um beijo vou roubar, foge o teu rosto… para não m`o dar…

I Parte

Si o teu rosto que de mim se furta, quando leva um beijo, cheira mais que a murta!
Quem o beija de manhã, primeiro, sente logo o cheiro matinal da flor!
Teus cabelos, com que a fronte enlutas, cheiram mais que as frutas dos vergeis rorantes!…
E essas gotas de suor, brilhantes, cheiram mais ainda que os cristais da flor.

III Parte (Trio)

Vens ao longe? O teu rosto flutua. Eu vejo nele a lua que, num casto véu,
toda envolta num saudoso fluido, à noite, num descuido, nos caiu do céu.

I Parte (Finalizar)

Dos sorrisos que, chorando, afago, vêm desabrochando no teu rosto mago,
vejo os frisos que o favônio brando faz, assim, brincando de um lago à flor.
Mudas liras, solitárias liras… com teu rosto inspiras – divinal Castália!
Ai, que gosto ver assim teu rosto, como a simples dália de amarela cor.

Moto contínuo

Não há particularidades significativas que destaquem o tango Bicyclette-Club dos demais. Sua forma é o habitual AA-BB-A-CC-A, e a melodia da primeira parte é composta por arpejos montados sobre sucessivos acordes de sétima. Enquanto isso, a mão esquerda dita ritmo “colcheia pontuada – semicolcheia”.

A segunda parte praticamente não possui síncopes em ambas as mãos – o que a tornaria, quando analisada isoladamente, uma polca. Por sua vez a terceira parte culmina na típica alegria com o que Nazareth procurava fechar seus tangos,
cuja melodia é formada por um moto contínuo de semicolcheias, oscilando entre diferentes oitavas na região aguda do piano.

Ouça o tango Bicyclette-Club, de Ernesto Nazareth, na interpretação de Alexandre Dias (clique no botão PLAY abaixo para ouvir e/ou no link “Download” para salvá-la. Atenção: caso a gravação não esteja sendo reproduzida corretamente, acesse o site da Piano Society, que contém todas as gravações da série disponíveis para download):

9 comentários em “Bicyclette-Club”
  1. Congratulations on your catchy Bicyclette-Club :)

  2. Bela música com um timbre de piano bem encorpado e muito interessante a foto e a história… Parabéns a todos os envolvidos!!!! :-)

  3. Congratulations on such a nice tango. I enjoyed it greatly. You have been doing a LOT of hard work to get a new one out each week.

  4. Obrigado Jang-Won, Alexandre (xará!) e Phil, vocês são um grande incentivo para continuarmos a fazer a série.

    Thank you Jang-Won, Alexandre and Phil, you incentivate us a lot to continue the series.

    Cheers,
    Alexandre

  5. Bicyclette-Club é, sem dúvida, um Tango gracioso, que ouço muitas vezes, off line. Deixa-me sempre uma saudade dos tempos de menino – que teima em voltar. Bicyclette-Clube, sem querer dar uma de Catullo da Paixão Cearense, poeta que amo pela doçura dos versos – devia se chamar “Rodas Amigas”. Explico-me: o “Rodas” é para lembrar a bicicleta, mas “Amigas” é o que realmente esta música evoca, conforme o seu comentário acima. Nazareth era um tanguista brasileiro, alegre, romântico que presava os amigos.
    A pesquisa acima é excelente, não leve em conta o meu tolo comentário.

  6. Obrigado pelos comentários, Newton. Para nós é muito importante o acompanhamento que “ouvintes” como você têm feito.

    Um abraço

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