Palavras de Guerra – Olívia Hime – Biscoito Fino – 2007

Capa do CD Palavras de Guerra, de Olivia HimeEm Olívia Hime, há sempre a cantora e a intérprete. E essas duas faces espelhadas encontram em seu novo disco, Palavras de Guerra, uma possiblidade de maior desdobramento, principalmente cênico, em se tratando de um repertório todo dedicado à obra de Ruy Guerra.

Ruy Guerra é cineasta, escritor, dramaturgo e compositor, e antes mesmo das ondas multimídias que invadiram nossa contemporaneidade, Ruy já se entranhava em todas estas áreas, ativista contumaz que se tornou em terras brasilis que ele adotou como suas. E é conduzido pela confluência dessa multiplicidade artistíca (Olívia, além de cantora, também é compositora, produtora e agitadora cultural) que esse encontro torna-se um marco na história de nossa música, Palavras de Guerra lavradas para sempre em nosso imaginário.

Um dos destaques do disco é o belo roteiro que apresenta, com pertinente intuito teatral, centrado nas parcerias de Ruy Guerra letrista com os imponentes Francis Hime, Edu Lobo, Sérgio Ricardo, Chico Buarque e Carlos Lyra. Clássicos como Minha (com Francis), Esse mundo é meu (com Sérgio Ricardo, sucesso na voz de Elis, da década de 70) e Tatuagem (com Chico, da peça Calabar, censurada em 1973), desfilam ao lado de outras pouco conhecidas, que tiveram gravações anteriores obscuras, caso específico de Corpo e Alma, canção visceral em parceria com Francis Hime, que agora se apresenta na dilacerante interpretação de Olívia.

Aliás, Olívia, além de ser a cantora que sempre foi – unindo sua bela voz à inteligência musical -, também se coloca como uma atriz da canção, uma cantora que atua na interpretação cênica das letras, permitindo a nós, ouvintes, novos enfoques e abordagens para temas que, em alguns casos, passaram despercebidas em gravações anteriores. Refiro-me, especificamente, a Bárbara (parceria de Ruy com Chico, aqui apresentada em duo com Olívia Byington) e Jogo de Roda (parceria com Edu Lobo, gravada por Elis nos anos 60). Ao ouvirmos estas gravações, torna-se clara a força interpetativa desenvolvida por Olívia Hime, cuja voz se engendra perfeita e harmoniosamente aos arranjos.

Com justeza predomina a música de Francis Hime (também é arranjador do disco e produtor), parceiro mais relevante de Ruy Guerra, destacando-se canções que foram gravadas por Francis nas décadas de 70 e 80 (em seus lps da Som Livre), caso de Ieramá, Ode Marítima, Máscara, e a melancólica e sofisticada Retrato, tema do filme A Estrela sobe, de Bruno Barreto. Alinhavam essa parceria Último canto, clássico da bossa nova gravada anteriormente pelo Quarteto Em Cy, e Minha, presentes também no primeiro álbum de Francis de 1974.

O próprio Ruy Guerra surge na emblemática Em Tempo de Adeus (com Edu Lobo), atingindo catarse em Fortaleza (com Chico Buarque), no qual parece sentenciar tanto seu ofício, como o de Olívia, na música e na arte:

“Minha fortaleza é de um silêncio infame, bastando a si mesma, retendo derrame, a minha represa”.

E essa força há tanto represada, cicatriz risonha, e ao mesmo tempo corrosiva aos padrões do mercado, encontra, nesse disco, momento glorioso de transbordamento.

Ouça a seguir Fortaleza, de Ruy Guerra e Chico Buarque, na voz de Olívia Hime (clique no botão PLAY abaixo para ouvir e/ou no link “Download” para salvá-la):

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2 comentários em “Palavras de Guerra – Olívia Hime – Biscoito Fino – 2007”
  1. ´e precisa a coragem

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