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Ipanema

O texto a seguir faz parte da série Raras de Ernesto Nazareth e possui a autoria de Alexandre Dias e revisão e diagramação de Zé Carlos Cipriano (conheça as demais músicas e a proposta da série neste artigo):

Bairro de Ipanema, Rio de Janeiro
Av. Vieira Souto, Ipanema, Rio de Janeiro (fonte da imagem: hadley coull)

Dedicada às bandas militares dos anos 20, a “marcha brasileira” Ipanema foi composta por Ernesto Nazareth provavelmente na mesma década (sua primeira edição foi publicada pela Casa Carlos Gomes no ano de 1928). Esta marcha foi gravada apenas uma vez, pela Orquestra Pan American (78-RPM Odeon 10.162-b), lançada em junho de 1928.

A escolha do bairro e a saúde de Marietta (*)

A referência do título desta marcha está diretamente relacionada à vida familiar do compositor. Morador do bairro carioca de Ipanema, na cidade do Rio de Janeiro, entre 1917 e 1929. Nazareth optou por este em função do bem estar de sua filha Maria de Lourdes Nazareth, também chamada de “Marietta“, que sofria de uma anemia que há tempos a deixava debilitada.

Na ocasião, como os médicos que cuidavam dela acreditavam que banhos de mar pudessem trazer melhoras à saúde da jovem, a família acabou se mudando para uma casa em frente à praia de Ipanema, à Rua Doutor Vieira Souto (mais tarde Avenida Vieira Souto), nº 158 (atual nº 192).

capa_ipanemaVendendo “Ipanema” para saldar dívida

Luiz Antônio de Almeida, pesquisador e biógrafo de Ernesto Nazareth, levantou um curioso ocorrido acerca do destino inusitado que levou esta peça: ela foi vendida para saldar uma dívida que o compositor tinha com a editora Casa Carlos Gomes.

Robert Donati, um dos donos da editora, desfez a sua sociedade com Eduardo Souto a partir de 1927, passando tudo para seu nome. Assim, procurou ele pôr em dia algumas pendências contábeis da empresa. Entre elas, estava a cobrança de uma dívida de 280 mil réis para Nazareth.

Sabendo da vida modesta que o compositor levava e acreditando que dificilmente veria a cor daquele montante, Donati acabou aceitando como forma de pagamento duas músicas: o tango Sutil e a marcha Ipanema. Assim consta uma carta (*) dirigida a Nazareth pelo dono da editora:

Casa Carlos Gomes
Robert Donati & Cia.

Rio de Janeiro, 17 de julho de 1928

Illmo. Snr.
Ernesto Nazareth
Rio de Janeiro

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.

Prezado Amigo Snr. Nazareth.

Junto seguem as provas das suas musicas “Subtil” e “Ipanema” pedindo o obsequio de revisar as provas e devolve-las quanto antes para impressão, indicando os erros que por acaso estiverem contidos nas mesmas.

Tambem pedimos o obsequio de vir assignar n`essa occasião o contracto de vendas d`essas musicas como combinado.

Sem mais, subscrevemo-nos com elevada estima de V. Sa.

Amos. attos obros
Robert Donati (00)

Marchas americanas versus brasileiras

John Philip SousaObservando a estrutura de Ipanema (intro -A-A-B-B-C-C- intro), fica evidente em sua harmonia um estilo que remete às marchas dos compositores americanos John Phillip Sousa (conhecido como o “Rei das marchas americanas”) e Scott Joplin, entre outros. Quiçá para acentuar uma distinção diante da similaridade com estas, Ernesto Nazareth optou por classificá-la como “marcha brasileira” na edição.

Destaca-se na peça a vivacidade e o brilho exaltados ao longo da partitura. Não é desproposital, portanto, a indicação “Enérgico” na introdução da marcha; isto, inclusive, é o que representa sua dificuldade interpretativa: conceder à peça uma só unidade, com um adequado espírito de “bravura” sem, entretanto, deixá-lo cair ou torná-lo muito exagerado.

Diversos recursos pianísticos são intensamente explorados em Ipanema: na primeira parte há melodias paralelas entre baixos e agudos; e entre elas estão os acordes divididos pelas duas mãos, algo um tanto intrincado no aspecto técnico, já que é necessário que o pianista faça soar a melodia mais destacada em relação aos acordes. Já na segunda parte, a melodia ascendente no grave se encontra paralela à melodia descendente nos agudos (e com dois acordes no meio das duas). Por fim, na terceira parte o caráter “marchístico” americano se confirma através do estilo baixo-acorde em compasso binário com as síncopes dosadas na direita.

(*) Informações retiradas da biografia de Ernesto Nazareth a ser publicada, escrita por Luiz Antonio de Almeida, com permissão do autor.

Ouça a marcha brasileira Ipanema de Ernesto Nazareth, na interpretação de Alexandre Dias (clique no botão PLAY abaixo para ouvir e/ou no link “Download” para salvá-la. Atenção: caso a gravação não esteja sendo reproduzida corretamente, acesse o site da Piano Society, que contém todas as gravações da série disponíveis para download):

13 comentários em “Ipanema”
  1. Como sempre vcs estão de parabéns.
    Muito legal a menção ao Sousa e ao Joplin.
    Tudo a ver mesmo
    Abraços

  2. Valeu pela força, Xará :O)

    Um abraço,
    Alexadre

  3. Ernesto Nazaret é uma joia escondida da mídia, das orquestras brasileiras e dos nossos grandes pianistas. O que se pode esperar de um país que esconde um grande compositor como Nazaret!
    Para mim, tudo o que ele produziu são obras de raríssima arte. Não conhecia esta magnífica valsa FANTÁSTICA e a belíssima marcha Ipanema. Dos choros, tangos etc, não é nem preciso comentar. É obra rara, prima, que tenho certeza, que se fosse de um país europeu, seria guindado ao altar dos grandes compositores. Mas, acordei…estou no Brasil!!!

  4. Oi Newton,
    Sim, infelizmente estamos num pais com pouca instrução musical, e que ainda valoriza pouco seus compositores do passado (quem sabe um dia acordaremos?). Mas quem tem consciência da importância dessas jóias do passado pode, a meu ver, contribuir, cada um à sua maneira, para transmitir um pouco da importância de compositores como Ernesto Nazareth.
    Veja você, o Nazareth compôs 211 peças completas, e hoje, mais de 70 anos depois de sua morte, ainda existem 61 músicas dele que nunca foram gravadas em disco, e 37 peças que nunca foram editadas em partitura impressa.
    Talvez um dia esta lacuna seja preenchida.

    Um abraço

  5. Muito bom continuem voçes fasem falta obrigsdo W.A…

  6. Parabéns pelo resgate das obras raras de Nazareth. A valsa Primorosa tem edição impressa ou on-line ? E a obra de Mário Pennaforte, quando será resgatada do esquecimento ?
    Abraços a todos e em especial ao Alexandre Dias.

  7. Ola Eduardo, obrigado pela mensagem. A valsa primorosa foi editada sim, se eu nao me engano ela ainda e` publicada nos dias de hoje, vale a pena checar no site da musimed (uma livraria grande de partituras que tem em brasilia) http://www.livrariamusimed.com.br/

    Infelizmente nao conheco a obra do Mario Pennaforte, estou lendo agora que ele ficou famoso por suas valsas. Se souber onde estao gravadas nos mande a dica.
    (desculpe a falta de acentos)

    Um abraco,
    Alexandre

  8. Alexandre , obrigado por ler minha mensagem.
    A obra de Mário Penaforte foi escassamente gravada, tenho conhecimento apenas da valsa Dolorosa , eu a ouvi no arquivo do Instituto Moreira Salles. . Vc. conhece o livro “Um rei da Valsa” de Onestaldo de Pennafort ? Lá tem um apanhado de obras de do Mário entre elas Baiser Supreme com a qual ele venceu um Concurso de Valsas em Paris no ano de 1914. Se eu puder ajudá-lo no seu trabalho ,entre em contato , que estarei pronto para fazê-lo. Obrigado

  9. Oi Eduardo,
    Obrigado pelas dicas, vou procurar estas musicas. Eh curioso que em 1914 o maxixe Dengozo do Ernesto Nazareth tambem estava sendo introduzido no exterior.

    Um abraco,
    Alexandre

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