O texto a seguir faz parte da série Raras de Ernesto Nazareth e possui a autoria de Alexandre Dias e revisão e diagramação de Zé Carlos Cipriano (conheça as demais músicas e a proposta da série neste artigo):

Orla marítima do Rio de Janeiro – foto: Flickr (Knivesout)
Referência atemporal de Ernesto Nazareth na música instrumental brasileira, o tango Atlântico, publicado em 1921 e dedicado ao amigo pessoal e maestro Arturo La Rosa, teve sua primeira gravação realizada somente trinta anos mais tarde, por Jacob do Bandolim (com Canhoto, Dino, Meira, Gilson e participação de Bill, 1952-1951 78-RPM – RCA Victor 80.0901-B, caixa BP-1).
A gravação de Jacob tornou-o tão popular que a partir dela houve, pelo menos, mais 14 gravações comerciais, quase todas no bandolim. Não é arriscado afirmar que a grande maioria dos artistas dessas gravações a tenham tirado de ouvido a partir da maneira jacobiana de tocar.
Dentre as gravações mais relevantes de Atlântico podemos citar:
- Afonso Machado e Bartholomeu Wiese (Bandolim, violão e percussão);
- Conjunto Doce de Coco (Bandolim e conjunto);
- Danilo Brito (bandolim) e conjunto;
- Déo Rian (bandolim);
- Quinteto Villa-Lobos (quinteto de sopros) e conjunto;
- Dirceu Leitte (saxofone) e conjunto;
- Élcio do Bandolim e conjunto;
- Grupo Esperando a Feijoada (bandolim e conjunto);
- Lena Vernani (clarineta) e Luiz Flávio Alcofra (violão);
- Marcílio Lopes (bandolim) e pandeiro;
- Novos Boemios (Bandolim e conjunto);
- O Trio [Pedro Amorim (bandolim), Paulo Sérgio Santos (clarineta) e Maurício Carrilho (violão)];
- Quatro a Zero [Eduardo Lobo (guitarra), Daniel Muller (piano), Danilo Penteado (contrabaixo) e Lucas da Rosa (bateria)];
- Rosária Gatti (piano) e Grupo Nosso Choro;
- grupo Bandolim de Ouro (bandolim e conjunto);
- grupo Choro de Bandolim (bandolim e conjunto).
Todas elas seguem, de certa forma, o registro fonográfico de Jacob no que se refere ao estilo da melodia e cifragem. Entretanto, a estruturação original deste tango de Nazareth, com primeira edição realizada pela Casa Bevilaqua, até hoje permanece inédita como registro comercial.
Versão original versus “à la Jacob”
É evidente a simplificação que o bandolinista Jacob do Bandolim, responsável pela retomada do interesse acerca da obra de Nazareth no repertório da música instrumental brasileira a partir dos anos 50, aplicou na melodia e harmonia de Atlântico, recriando-a à sua maneira.
Assim o 7 cordas ficava livre pra transitar, o cavaquinho para harmonizar, e o bandolim para fazer a melodia a uma voz apenas. Na segunda e terceira partes aparecem duas vozes na melodia, que são perdidas na gravação do Jacob. Além disso, ele adaptou também alguns trechos da melodia para o bandolim como se observa no arpejo final da terceira parte, algo páreo pra poucos instrumentos.
Na versão original, para piano, merece destaque a bela construção dos baixos na segunda e terceira partes, bem como as terças na terceira parte. É valido apontar também que, na segunda parte, a melodia fica toda “dentro” da mão, embora seja toda construída em saltos. Portanto, isso caracteriza uma autêntica escrita pianística, ou seja, uma preocupação do compositor em explorar adequadamente os recursos do piano de maneira que isso permaneça confortável para a anatomia da mão.
É o que se vê, por exemplo, no arpejo em ré bemol na segunda parte (em geral este tem de ser adaptado para outros instrumentos, repetindo o arpejo na mesma oitava, por exemplo, ao invés de descer), assim como o arpejo no final da terceira parte. Esta parte, por sinal, vai se abrindo cada vez mais para os extremos, terminando com a mão esquerda a tocar os baixos bastante graves, e a melodia bastante aguda, aumentando assim a dramaticidade do crescendo.
Outro destaque na versão original, são os trinados da primeira parte, suprimidos por Jacob em sua gravação. Estes trinados de caráter barroco, à la Jean-Phillipe Rameau, são explorados com propriedade pelo compositor, e inevitavelmente complicam um pouco a vida do pianista que a executa. Desafio nazarethiano similar a esse se vê em outra peça conhecida, a polca Apanhei-te, cavaquinho.
Ouça o tango Atlântico, de Ernesto Nazareth, na interpretação de Alexandre Dias (clique no botão PLAY abaixo para ouvir e/ou no link “Download” para salvá-la; Atenção: caso a gravação não esteja sendo reproduzida corretamente, acesse o site da Piano Society, que contém todas as gravações da série disponíveis para download):





Brilhante interpretação e caracterização. Parabéns!
adorei!!
Parabéns pela belíssima interpretação e pela detalhada pesquisa. Apreciei bastante a versão pianística do “Atlântico”!
Lindo, lindo!!! Parabéns por esta série belíssima “Raras de Ernesto Nazareth”. Estou adorando ouvir e aprender sobre esse compositor fantástico!
Paula e demais leitores que têm comentado sobre série,
Obrigado pela participação e continuem acompanhando as músicas de Nazareth.
Abraços!
Cada vez mais eu me apaixono pelo Nazareth e por suas interpretações. Pena que poucos têm a oportunidade de acesso a essas raridades.
Sempre considerei Eudóxia de Barros imbatível para Ernesto Nazareth, pela sua ginga insuperável, pelo seu “brasileirismo” delicioso na interpretação. Estava na hora de aparecer finalmente um intérprete digno de sucedê-la. Alexandre, gostaria muito de adquirir seu(s) cd(s) de Nazareth, se existir(em). Como faço ?
Parabéns.
Paulo
Oi Paulo,
Obrigado mesmo pelos elogios, eles são muito importantes para mim, e mostram que nossa série está sendo apreciada. (o que só nos estimula a continuar a produzi-la semanalmente). Eu ainda não possuo nenhum CD gravado, mas te escreveremos por e-mail para lhe enviar uma cópia das gravações presentes no site.
Um grande abraço,
Alexandre
Oi pessoal!
Eu quero saber se tem como vocês me enviarem uma cópia das gravações presentes no site?
Minha mãe adora essas músicas, e eu quero dar um CD pra ela com as músicas de Ernesto Nazareth, e outros!
Por favor, eu estou querendo muuuuuuuuito a cópia!
Muito obrigado!!!
Prezado Alexandre,
meus parabéns pelo belo trabalho, pelas excelentes interpretações!
Um grande abraço,
Wilfried