Gérson Records

Li agora há pouco no Violão Clássico Weblog a respeito das três indicações que o Duo Assad recebeu no Prêmio TIM, através de dois CDs: Two concertos por two guitars e Lo que Vendrá, do selo brasileiro Rob Digital. Chamou-me a atenção duas coisas que não batiam:

  • A proposta do Prêmio Tim é divulgar a produção atual da música brasileira (neste caso, os melhores de 2006), ou desenterrar cacarecos? É que esses dois CDs, na realidade, são um pouquinho mais velhos do que os demais concorrentes: ambos foram lançados originalmente no exterior pelo selo belga GHA Records e estão em catálogo há mais de 15 anos. O primeiro foi lançado em 1991 e o segundo, cujo título original é Gnattali, Rodrigo, Piazzolla, é de 1984 (!!!) e foi relançado em CD em 1993.
  • Sérgio e Odair concorrem como melhores solistas – o terceiro concorrente é o bandolinista Hamilton de Holanda – tendo como referência de seu trabalho solo a performance de ambos executada em um disco de música de câmara. Os dois somente tocam em duo. Não há nenhuma faixa em que qualquer um deles toque como solista. É sério, podem conferir.

E aí, como fica?

Não desmerecendo o reconhecimento que estes discos e seus artistas devem ter – e que injustamente este país ainda não o fez – mas essa indicação é uma tremenda palhaçada e isso só mostra o engodo que é esse tal Prêmio Tim.

Sobre a indicação para solistas do duo, fico imaginando a capacidade sobrenatural que esses jurados tiveram ao ouvir, com tamanha percepção e sensibilidade, um CD que apresenta unicamente o trabalho de música de câmara de dois músicos, tocando o mesmo instrumento e executando apenas repertório de câmara, para discernir, desvencilhar por completo a performance de cada um deles como se o trabalho fosse de um solista. O que é agora? Querem fazer um revival tupiniquim da nomeação de Geena Davis e Susan Sarandon para o Oscar de melhor atriz em Thelma e Louise para dar emoção ao concurso? Se fosse uma indicação deveras séria para solista, tanto Sérgio como Odair possuem trabalhos como solista dignos de ganhar Grammy, como aliás já concorreram uma vez.

E por fim: que critérios esse júri de seres iluminados utilizou para decidir pela indicação de discos com mais de 20 anos de idade, em catálogo há décadas por um selo estrangeiro lá fora e que simplesmente foram relançados agora há pouco, em CD no Brasil, por um selo nacional? Se for assim, abrirei então meu selo “Gérson Records” e relançarei o Clementina, cadê você?, que até agora nunca saiu em CD, para faturar com ele na categoria melhor disco de samba no ano que vem. Ou melhor ainda: pegarei qualquer disco do Baden, Laurindo ou Bonfá, das centenas de títulos lançados somente no exterior dos três, para concorrer na categoria instrumental e levar o troféu pra casa pelos próximos 50 anos.

Assim é, como afirma o release institucional da empresa patrocinadora soltado à imprensa, o evento “que desde 2003 vem se consolidando como a mais conceituada premiação da música brasileira”.

1 comentário em “Gérson Records”
  1. Bobagem esta preocupação com a irracionalidade das regras do Prêmio Tim.

    O principal é que finalmente existem CDs dos Assad lançados no Brasil. Melhor ainda é além destas duas indicações, a Rob Digital também editou outro CD do duo com a suite Natsu No Niwa de Sérgio Assad.

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