Cuéra

O texto a seguir faz parte da série Raras de Ernesto Nazareth e possui a autoria de Alexandre Dias e revisão e diagramação de Zé Carlos Cipriano (conheça as demais músicas e a proposta da série neste artigo):

Cocada e Corta Capim, movimentos da capoeira desenhados por Kalixto, em 1906Cuéra, ou qüera na atual ortografia da língua portuguesa, vem do tupi `velho`, que possui o sentido de ser valentão, daqueles que não levam desaforo: “um cabra qüera bom troveiro e dançador, num desafio chama à dança a namorada” (Martins Fontes, A Dança, pág. 92). Sendo uma gíria da época, este termo se tornou também o título de uma polca-tango de Ernesto Nazareth lançada em 1913, dedicada a seu amigo gerente do Cinema Odeon, Salvador Dell’Osso.

Cuéra levou essa denominação musical por ser uma típica polca composta ao estilo dos tangos brasileiros de Nazareth. O compositor, aliás, tinha o hábito de realizar experimentalismos que resultavam em gêneros híbridos. Assim nasceram, por exemplo, as “polcas-lundu” Você bem sabe (1877), Cuyubinha (1893) e outras duas “polcas-tango”, Rayon d`Or (1892) e Polka-Tango para a mão esquerda (sem data definida).

Esta peça possui duas gravações registradas até o momento: a primeira, realizada pela Simão Nacional Orquestra no ano de 1928 (78-RPM Parlophon 12.885-b) e uma segunda, gravada por Odette Ernst Dias tocando flautim e acompanhada por conjunto de choro no LP Chorando Callado (Vol.1), lançado pela FENABB em 1981. Assim sendo, permanece inédita em CD, bem como sua versão original para piano.

“Baixarias” com personalidade

A primeira parte de Cuéra segue um estilo de composição parecido com o que ouvimos em Proeminente: a partir de uma pequena célula musical, o autor desenvolve todo o tema da peça. O desenho da célula é constante e sempre se repete, embora de maneiras diferentes. Isso é um ponto comum nas composições do Nazareth.

Vale notar também o caminho dos baixos na primeira parte que perfaz um desenho melódico per se, isto é, independente da(s) melodia(s) da mão direita. Aliás, ele sempre dedica em suas peças um tratamento especial para os baixos. Há músicos que afirmam que é possível reconhecer um compositor pelos baixos que ele emprega na peça. Assim é, asseguradamente, Ernesto Nazareth.

Por sua vez, a intrincada segunda parte dessa polca-tango se caracteriza como um pequeno exercício de técnica pianística, onde oitavas são intercaladas por notas no meio delas, além de explorar extensamente a região aguda, até a última oitava, tornando-a outrossim uma peça delicada, daquelas que oferecem ao pianista um vasto número de filigranas possíveis em sua interpretação.

Finalmente, a terceira parte de Cuéra chama a atenção pela criatividade do compositor ao simular um contexto musical feito com “perguntas” (na região média) e “respostas” (na região aguda). Entretanto, há algo que desperta, bem mais, a atenção…

Cúera ou… Ameno Resedá?

Ernesto Nazareth - foto: Arquivo Biblioteca NacionalQuem conhece o repertório nazarethiano certamente não deixará de notar a semelhança com a famosa polca do compositor, intitulada Ameno Resedá. Mera coincidência?

Vejamos: ambas foram compostas no mesmo ano, 1913. O desenho melódico da frase no meio da terceira parte de Cuéra e da segunda de Ameno é praticamente o mesmo, estando ambas num contexto de tom menor. A forma como escalas cromáticas são utilizadas também é um ponto de intersecção entre as duas. Isso sem contar a exploração da região aguda das últimas oitavas do instrumento em ambas as peças.

Contudo, é necessário também contrabalancear tais paridades com algumas evidências que as diferem: a primeira parte de Ameno não é baseada em uma célula melódica, tal como ocorre em Cuéra. Já a mão direita do pianista em Ameno se situa quase que inteiramente em uma voz só, enquanto que em Cuéra a mão direita perpassa mais de uma voz simultânea. E finalmente, a idéia melódica de Ameno se mantém executada na penúltima oitava o tempo todo, enquanto Cuéra explora tanto as regiões médias quanto agudas do teclado.

Mais semelhanças à vista? Ou quem sabe mais diferenças? Só uma análise mais apurada poderia apontar para uma conclusão mais consistente. Entretanto é sabido que não precisamos, felizmente, de nenhum estudo ou análise para reconhecer e apreciar a genialidade de Ernesto Nazareth e seu baú de inesperadas, porém gratas, surpresas musicais.

Ouça a polca-tango Cuéra, de Ernesto Nazareth, na interpretação de Alexandre Dias (clique no botão PLAY abaixo para ouvir e/ou no link “Download” para salvá-la; Atenção: caso a gravação não esteja sendo reproduzida corretamente, acesse o site da Piano Society, que contém todas as gravações da série disponíveis para download):

10 comentários em “Cuéra”
  1. Excelente execução !!!! Música muito legal !!! Parabéns Chará

  2. Lindo como tudo do Nazareth. A sensação é como se estivéssesmos andando pelas ruas do Rio antigo, no início do século. O som dos pianos vindo das janelas de todos os sobradões dedilhado por centenas de moçoilas virgens à espera de um pretendente que lhe rendesse um bom casamento… e claro tocando também por outras, que já não tão moçoilas. Essas tinham virado as inveteradas solteironas, “sombrinhas de padre inácio” como eram chamadas pelo irônico vocabulário da época…

  3. Grande Xará!
    Belo Trabalho.

  4. Parabéns Alexandre pela execução e pela pesquisa primorosa!
    aguardo as próximas…

  5. alguém sabe onde posso encontrar a partitura de tal música?
    pretendo tocá-la numa apresentação dia 20/04.
    como vêem meu praso não é dos mais longos…

    agradeço desde já a colaboração dos que se dispõem à me ajudar.

    boa semana.

  6. BOM DIA,

    ADOREI ESTA MUSICA E NEM PRECISO FALAR O QUANTO VOCE TOCA BEM.SOU APAIXONADA POR MUSICA E PELO ERNESTO NAZARETH.(se possivel e não for abuso)enviar a partitura para mim.

    PS:Já estou estudando a “Pauliceia como es formosa ´´

    atenciosamente,
    Esther

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