Elsie Houston – A Feminilidade do Canto
por Zé Carlos Cipriano em 2 de dezembro de 2004
Publicado em Ensaios
A importância desse trabalho, ainda que pouco valorizado por aqui na época de seu lançamento (e que até hoje permanece sem tradução para o português), concede à Elsie Houston, segundo palavras do pesquisador Emanoel Araujo, a alcunha de embaixatriz não oficial de seu país, em função desse empenho de divulgadora da música brasileira.
Pense numa artista completa, de voz e presença marcantes, inconfundíveis, cuja exuberância de sua arte e imagem ultrapassou as fronteiras e costumes de sua época, tornando-se referência da cultura popular brasileira nos Estados Unidos e Europa durante a primeira metade do século XX. Carmen Miranda? Pense numa mulher que além de todo esse reconhecimento internacional, possuía irretocável formação acadêmica no canto lírico, sendo uma das mais marcantes intérpretes e difusoras da obra nacionalista de Heitor Villa-Lobos. Bidu Sayão? Pense numa cantora que também era pesquisadora entusiasta do folclore brasileiro e aclamada mundo afora pelo seu trabalho de preservação musical. Olga Praguer Coelho?
Os nomes citados acima estão todos corretos, embora exista uma alternativa resposta em comum para essas três perguntas, entretanto, desconhecida do grande público: Elsie Houston. Filha de uma carioca e um dentista americano, nascida em 1903 no Rio de Janeiro, sua fascinante carreira artística, iniciada precocemente na adolescência, parece ter sido propositalmente intensa para compensar sua curta duração, encerrada abruptamente com seu falecimento, em Nova Iorque no ano de 1943.
Aos 19 anos, sua aproximação com o maestro e compositor Luciano Gallet, contumaz defensor de uma linguagem musical genuinamente nacional que partisse do aproveitamento de canções folclóricas tradicionais harmonizadas no estilo erudito, Elsie Houston pegou gosto por essa vertente e não mais se desvencilhou dela. Foi esse caminho, aliás, quem lhe abriu as portas para a efervescência cultural da década de 20, conhecidos como les anées folles, tornando-se amiga de Mário e Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Pagu, Manuel Bandeira e Murilo Mendes, entre outros, e ativista do movimento modernista.
Também abriu-lhe as portas para o mundo, concluindo seus estudos de canto na Alemanha, apresentando-se a seguir, no início de sua carreira profissional, na Argentina com rerpertórios genuinamente brasileiros de seus contemporâneos Gallet, Heckel Tavares e Jayme Ovalle – e também com temas foclóricos sul-americanos, outra grande paixão sua – culminando em Paris, no ano de 1927, ao se firmar como grande intérprete do canto lírico, quando de sua participação nos concertos históricos da Sala Gaveau junto com Arthur Rubinstein, Vera Janacopoulos e Villa-Lobos – tendo o próprio como regente, inclusive.

O mesmo ano na França foi importante na vida de Elsie, ao conhecer seu marido, Benjamin Péret, poeta surrealista da mesma vanguarda dos poetas Louis Aragon e André Breton, pesquisador e ferrenho ativista político que, apesar do casamento de curta duração, foi seu parâmetro principal para tomar gosto pela pesquisa de temas colocados em segundo plano até então pelo meio acadêmico, tais como o folclore e as religiões afro-brasileiras.
Mário de Andrade define adequadamente essa Elsie pesquisadora perspicaz: ela “possuía um conhecimento da nossa música popular pelo menos bem mais largo e menos regional que os dos nosso compositores”. O ápice dessa veia investigativa deu-se em 1931, com a publicação de seu livro Chants populaires du Brésil, onde ela descreve a origem e características da canção popular através da referência no trabalho de outros folcloristas e de registros póprios coletados em suas viagens pelo Norte e Nordeste do Brasil em 1929 ao lado de seu marido, assinalando, sobretudo, a forte influência negra na música nacional, exemplificada pelas amostras de emboladas, cocos, chulas, lundus e temas de macumba.
A importância desse trabalho, ainda que pouco valorizado por aqui na época de seu lançamento (e que até hoje permanece sem tradução para o português), concede à Elsie Houston, segundo palavras do pesquisador Emanoel Araujo, a alcunha de embaixatriz não oficial de seu país, em função desse empenho de divulgadora da música brasileira:
“Elsie era não apenas uma pesquisadora da música de sua terra, mas também sua intérprete, ou melhor dizendo, uma “diseuse” de suas canções: ela “dizia” o folclore do mundo ao seu público ouvinte, explicando o que cantava, rapidamente durante os concertos, ou de maneira mais extensa, como o fez em conferências que pronunciou em Paris. Quando não podia ou não sabia cantar uma música, Elsie tocava um disco para apresentá-la ao público, enriquecendo assim a metodologia didática usada para transmitir seu conhecimento”.
A partir de 1937, quando mudou-se para Nova Iorque. Elsie despontou como divulgadora da música brasileira nos EUA. entre 1939 e 1940, ela teve um programa semanal de rádio na NBC, chamado “Fiesta Pan Americana”, onde apresentava repertórios folclóricos brasileiros em horário nobre. De fato, Elsie consolidou de vez a posição de estrela, uma diva, admirada pela crítica especializada que contemplava sua originalidade e capacidade como cantora, e também pelo grande público americano, amante na época de voodoo songs – gênero relacionado à musica e religião do Haiti – e que se deslumbrava com a imagem exótica e hipnotizante da artista, seu olhar, suas vestimentas, seu gestual ao se auto-acompanhar com percussão e um voz marcante, inesquecível.
Tal fascínio de sua presença pode ser imaginado, quiçá, por meio da poesia de Murilo Mendes: “[Elsie] cantando, os braços morenos e a pinta do rosto, a dançante cabeça, desobrava o charme ambíguo; era sopro, tensão malinconia, timbre de violência e ternura, noite calmosa, dança de caboclo, boitatá, berimbau, bambalelê, quibungo, taieira, ponto de santo; lirismo agressivo anarquia, êxtase; tonal, atonal; azul terrível, estrela do céu e é lua nova.”
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O CD Elsie Houston – A Feminilidade do Canto, disponibiliza um seleção de 14 faixas gravadas a partir de 1930, todas apresentando temas e ritmos folclóricos como canções, maxixes, sambas, cocos e emboladas.
A faixa de abertura, o maxixe Macumbagelê, de J. da Paulicéia e Lilico Leal, remete o ouvinte às animadas rodas de cantos afro-religiosos, sustentada por um acompanhamento de regional cuja introdução instrumental e levada relembram o conhecido Jura de Sinhõ. João Pernambuco está presente no repertório de Elsie através do marcado Coco Dendê, com direito a solos de pandeiro, seguido do tema folclórico Ai, Sabiá da Mata, e através da influência musical exercida em Morena cor de canela, de Ari Kerner Veiga de Castro. Já o batuque Cadê minha pomba rola e o coco Êh! Jurupanã (gravado na França) são amostras da capacidade de criação da cantora por meio da releitura original em cima de motivos populares, onde ela é também autora do arranjo além de intérprete. E sua inventividade em agrupar canções torna-se evidente em exemplos como um pout-pourri que começa com a canção de ninar intitulada por ela de Berceuse Africano-Brésilienne e termina com a embolada de letra “trava-língua Óia o sapo.
O CD de Elsie Houston, lançado pela gravadora Atração Fonográfica, vem acompanhado de um rico libreto biográfico organizado por Emanoel Araujo e Gregórie de Villanova. Trata-se de um projeto de pesquisa integrado à exposição “Negras memórias, memórias de negro”, cujo lançamento ocorreu durante a recente inauguração do Museu Afro Brasil, no Parque do Ibirapuera e está à venda no local por módicos 30 reais. Para quem estiver em São Paulo capital, vale muito conhecer o novo museu e comprar o disco.
Além do CD, metade dessas faixas estão disponíveis para ouvir no acervo digital do IMS. Para acessar o acervo é preciso fazer o cadastro, que é gratuito. Veja aqui as instruções para acessá-lo. Ao entrar lá, no item busca digite “elsie houston”. Na segunda página dos resultados virá o link para ouvir as faixas.



Sovaco de Cobra » Sobre Elsie Houston, em 18 de dezembro de 2006 às 22:47
[...] Há algum tempo atrás publiquei um artigo sobre a cantora brasileira Elsie Houston e a importância de seu trabalho, ainda que completamente desconhecido, para a difusão de nossa cultura popular no mundo durante a primeira metade do século XX. [...]
Sovaco de Cobra » Especial sobre Elsie Houston na Rádio Cultura AM, em 17 de junho de 2007 às 1:36
[...] O programa A Voz popular, que vai ao ar neste domingo (17/06) às 11h na Rádio Cultura AM (1200 kHz) de São Paulo, focaliza a carreira da soprano carioca Elsie Houston. [...]
Isabel, em 8 de setembro de 2007 às 12:34
Bom dia!
Gostaria de comunicar que defendi uma dissertação de Mestrado, pelo Instituto de Artes, da Unesp, em 2000, sobre Elsie Houston. Na biblioteca desse instituto existe um exemplar.
Para maiores informações ou se puder divulgar, por favor, entre em contato.
Obrigada,
Isabel Bertevelli