João Pernambuco e o sertão – Baden Powell – 2000

Capa do CD João Pernambuco e o SertãoGravado no estúdio do Sesc Vila Mariana, em São Paulo capital no ano de 1999, o CD João Pernambuco e o Sertão proporciona o encontro sublime de dois nomes globalmente difundidos no meio violonístico e instrumental: João Pernambuco, através de suas composições, e Baden Powell, inspirado na interpretação da obra do primeiro.

Com produção e direção musical de Fernando Faro, este CD de tiragem limitada teve a participação do violonista Leandro Carvalho, pesquisador da obra do compositor pernambucano. Trata-se também de uma das últimas gravações do violonista Baden Powell, falecido em 2000.

A influência de João Pernambuco para Baden Powell é evidenciada desde sua aproximação e aprendizado do violão, através das aulas de seu professor James Tomás Florence, conhecido como Meira, integrante de uma geração de instrumentistas vindos do norte que se aventurou pelo cenário musical do Rio de Janeiro graças à abertura realizada pelo reconhecimento do violão, do cancioneiro e dos conjuntos típicos de João Pernambuco, que fizeram muito sucesso a partir da década de 10.

Leandro Carvalho e Baden Powell durante a gravação do CDÉ fato que as peças de João Pernambuco nos programas de discos e shows de Baden Powell estiveram sempre presentes, justificando assim essa espécie de tributo ao pai pernambucano do violão brasileiro. O CD abre com Luar do Sertão, uma faixa enigmática de dez minutos direito a uma sessão de improvisos, vocalises de Baden e citações de outros clássicos do compositor, como Cabôca di Caxangá e Interrogando – também conhecido como Jongo, por diversas vezes gravado pelo violão de Baden.

Aliás, o caráter de toada lenta iniciado na primeira faixa, repleta de elementos musicais nordestinos – ate mesmo o baixo em ré que sugerem o tema principal, adotado em função do tom da maioria das músicas – permanece constante por todo o disco. É assim que ocorre na popular Sons de Carrilhões, “descontruída” por Baden nesse arranjo livre, bem diferente do que se costuma ouvir em sua versão tradicional difundida por Dilermando Reis. O mesmo ocorre nas demais peças previamente conhecidas pela sua levada ágil e rasteira, como Brasileirinho, Pó de mico, Dengoso, Graúna e Interrogando.

O momento mais sensível do CD está na Valsa em lá, peça pouco conhecida de João Pernambuco, uma espécie de evocação ao Abismo de Rosas do violonista Canhoto, exaltada por Baden através de exagerados glissandos descrecentes e pizzicatos propositais, onde sobressai o lado seresteiro do compositor, que determinaria através dessa e de outra valsa sua também presente no CD, o Sonho de Magia, o estilo de se fazer valsas-choro, que influenciou gente como Pixinguinha e Heitor Villa-Lobos – é evidente, por exemplo, a referência mais do que explícita e não citada da valsa Sonho de Magia no tema principal da primeira parte do Prelúdio n.5 para violão de Villa.

João Pernambuco, Rio de Janeiro, 1918João Teixeira Guimarães, filho de uma índia caeté com um português, nascido em 1883 em Jatobá, no interior de Pernambuco, é atualmente referência universal atemporal para o repertório do violão como instrumento de câmara. Tamanha maleabilidade que ignora fronteiras, estilos e idiomas fomenta essa onipresença musical. Portanto, sempre haverá desde uma roda de choro em qualquer parte do país tocando Sons de Carrilhões, até um jovem concertista alemão executando a intrincada Graúna numa masterclass de qualquer festival internacional de violão erudito.

Isso é o que ocorre nos dias de hoje, felizmente. Entretanto, só haverá continuidade se for seguido o conselho a seguir do maior conhecedor do compositor, Leandro de Carvalho: “A vida e a obra de João Pernambuco devem nos servir de exemplo de que a ocultação histórica a que submetemos nossos artistas, ao longo dos anos, só nos prejudica. A riqueza de nossa cultura é evidente: ela deve ser explorada, fortalecida e documentada. Os artistas de hoje devem ter em mente este objetivo, para que não percam tempo imitando, mais uma vez, os nossos colonizadores.”

P.S.: Aí vai uma dica para quem estiver em SP capital. Na Neto Discos, loja que fica em frente ao Espaço Unibanco de Cinema, na Rua Augusta, os dois CDs de Leandro Carvalho, João Pernambuco – o poeta do violão, e Descobrindo João Pernambuco estão lá sendo vendidos por ridículos 6 reais cada. Corra e compre já! Noutra oportunidade falarei sobre eles.

3 comentários em “João Pernambuco e o sertão – Baden Powell – 2000”
  1. Amigo, onde eu compro este CD (joão Pernambuco e o Sertão)? Aqui no Nordeste, infelizmente, esse material não circula muito.

  2. Sou pernambucano e gostaria de comprar o cd(joao) pernabuco e o sertao) com baden powell.

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