Paulinho Nogueira (1927-2003)

por Zé Carlos Cipriano em 3 de agosto de 2003  
Publicado em Memória

O nome Paulinho Nogueira é um daqueles cujo reconhecimento ultrapassa o âmbito da especialidade em que se destaca, no caso o violão. Quem não conhece Menino, desce daí ou Menina? Sobretudo no meio violonístico, quem nunca aprendeu a solar ou se impressionava ao ouvir pela primeira vez a Bachianinha?
Lembro-me bem da ocasião em que assisti [...]

O nome Paulinho Nogueira é um daqueles cujo reconhecimento ultrapassa o âmbito da especialidade em que se destaca, no caso o violão. Quem não conhece Menino, desce daí ou Menina? Sobretudo no meio violonístico, quem nunca aprendeu a solar ou se impressionava ao ouvir pela primeira vez a Bachianinha?

Paulinho NogueiraLembro-me bem da ocasião em que assisti a um workshop seu alguns anos atrás num evento de violão. Era um festival internacional, com nomes badalados do violão erudito e uma molecada de alunos, a maioria estudantes de faculdade de música que só ouve isso – o que faz eles torcerem o nariz para o estilo tranqüilo do Paulinho de tocar seu violão com captador e suas técnicas singelas, porém mirabolantes como, por exemplo, o dedilhar com o dedo mínimo esquerdo.

Com muita humildade e simpatia, aquele senhor calmo e comunicativo cativou a todos os presentes ao iniciar a reunião. Acabou transformando um workshop sobre técnica de violão numa gostosa conversa onde ele contava inúmeros causos de sua vida musical – que coincidia com a história da MPB dos anos 50 para cá. Quanto mais falava, mais ele envolvia e encantava, fazendo o tempo passar rápido demais.

Um das histórias mais curiosas foi a seguinte: nos anos 60, durante o auge do sucesso da dupla Baden e Vinícius, ele foi mostrar ao irmão todo orgulhoso um arranjo que tinha acabado de fazer para Samba em Prelúdio: “olha só, enquanto a voz canta a melodia A da música eu toco este arranjo da melodia B simultaneamente!” O irmão debochou: ah, isso é fácil! quero ver você tocar as duas no mesmo violão ao mesmo tempo!” Isso soou como um desafio e lá foi ele passar dias quebrando a cabeça para fazer um arranjo com aquelas duas linhas melódicas, distintas mas que eram passíveis de se encaixar numa harmonia só. Até que conseguiu. E o resultado ele mostrou aos privilegiados que estavam a ouvir atentamente a narração de sua façanha.

Seu estilo de tocar é inconfundível. Uma das amostras mais bonitas desse estilo está numa gravação de 1966 de Elis Regina, aos vinte anos de idade e já com aquela potência de voz, cantando Carinhoso, acompanhada pelo Paulinho e pelo Regional do Caçulinha. Pessoalmente, não sou muito fã de ouvir essa música acompanhada pela letra do Braguinha, mas esta gravação é de sensibilizar qualquer um. Não só pela Elis, mas principalmente pelo delicado violão de Paulinho que introduz e finaliza de maneira comovente a música.

Comovidos estão agora todos os que apreciam a MPB e que não poderão ouvir mais seu violão. Porém, seu legado de composições e gravações está aí, para continuar a comover, com a sutileza e tranqüilidade que só o seu violão foi capaz de passar.

Yaô

por Zé Carlos Cipriano em 3 de agosto de 2003  
Publicado em Perfil

Este lundu de Pixinguinha com letra de Gastão Vianna possui diversas gravações, desde o próprio Pixinguinha no vocal, passando pelo João da Bahiana, Elizeth Cardoso – no disco Uma Rosa para Pixinguinha, minha gravação preferida – até João Bosco.
Para entender um pouco a letra, cheia de palavras de origem africana inseridas pelo Gastão Vianna, segue [...]

Este lundu de Pixinguinha com letra de Gastão Vianna possui diversas gravações, desde o próprio Pixinguinha no vocal, passando pelo João da Bahiana, Elizeth Cardoso – no disco Uma Rosa para Pixinguinha, minha gravação preferida – até João Bosco.

Para entender um pouco a letra, cheia de palavras de origem africana inseridas pelo Gastão Vianna, segue a explicação de alguns trechos segundo a contra-capa do disco Gente da Antiga, de autoria do Hermínio Bello de Carvalho:

João da Bahiana explica: “Yaô são filhas de santo do terreiro. Aquicó é o galo, peru adié a galinha. Isso quer dizer: o galo com as galinhas no terreiro fazem inveja pros rapazes solteiros. Jacutá de preto véio: casa de babalaô. Oxóssi é São Sebastião. Vamos saravá Xangô: vamos saudar São Jerônimo”. Eis a letra:

OxóssiAquicó no terreiro
Peru adié
Faz inveja pra gente
Que não tem mulher
(Bis)

No jacutá de preto véio
Há uma festa de yaô
(Bis)

Ôi tem nega de Ogum
De Oxalá, de Iemanjá

Mucama de Oxossi é caçador
Ora viva Nanã
Nanã borocô
(Bis)

Yô yôo
Yô yôoo

No terreiro de preto véio, iaiá
Vamos saravá (a quem meu pai?)
Xangô
(Bis)

Gente da antiga – Pixinguinha, Clementina de Jesus e João da Bahiana – Odeon 1968

por Zé Carlos Cipriano em 2 de agosto de 2003  
Publicado em CDs

Falar sobre Gente da antiga não é fácil. De início, a foto da capa já intimida. As feições de Clementina de Jesus, Pixinguinha e João da Bahiana parecem transmitir a quem olha o sentimento de alegria e descontração que imperava naquele ambiente dos três dias de gravações, onde não houve praticamente nenhum ensaio: os três, [...]

Clementina de Jesus, Pixinguinha e João da Bahiana

Falar sobre Gente da antiga não é fácil. De início, a foto da capa já intimida. As feições de Clementina de Jesus, Pixinguinha e João da Bahiana parecem transmitir a quem olha o sentimento de alegria e descontração que imperava naquele ambiente dos três dias de gravações, onde não houve praticamente nenhum ensaio: os três, acompanhados de vários músicos, decidiram o que tocar somente na hora. E que time de músicos: Canhoto, Dino e Meira no acompanhamento chorístico; Manoelzinho na flauta e o maestro Nelsinho no trombone; Marçal, Gilberto, Luna e Jorge Arena na percussão típica e um coro formado por Nelson Sargento, Anescar, Jairzinho da Portela entre outros (lembro-me de ter perguntado ao Hermínio Bello de Carvalho sobre o fotógrafo que captou tal momento: Pedrinho de Moraes, senão me engano tem algum parentesco com o Vinícius, mas não recordo qual é).

Choros, lundus, corimas e sambas de rodas comandam este disco. A primeira faixa é o histórico choro Os oito batutas, composto por Pixinguinha em 1921 para seu grupo musical de mesmo nome, onde o saxofone do mestre conversa com a flauta de Manoelzinho, tendo as intervenções do trombone de Nelsinho. Fala baixinho é outro belo choro que ganhou letra do Hermínio, bem conhecido na voz de Elizeth Cardoso, e tem como destaque a base constantemente arpejada do cavaquinho de Canhoto e o solo de trombone de Nelsinho na parte B.

O lundu Yaô – cujo significado é filha de santo do terreiro – é praticamente um elo perdido do que as raizes africanas fizeram na cultura musical brasileira (a letra desta música, com sua respectiva “tradução” publicarei em outro post). Mãe Quelé entoa após a introdução da cuíca de Marçal o popular refrão “Roxá, vamo vadiá, minha nega” em Roxá, nesta batucada que repesenta uma amostra das origens do samba de partido alto. Clementina improvisa muito à vontade na gravação, o que faz recordar bastante a gravação do show Rosa de Ouro.As corimas cantadas por João da Bahiana e Clementina de Jesus Quê quê rê quê quê e Mironga de moça branca mostram nitidamente o sincretismo religioso nesses cantos afros que trazem referências católicas. Eis a saudação de João antes de se iniciar a música: “Louvado seja meu Senhor Jesus Cristo, viva gente de linha de Angola, viva gente de linha de Nagô e viva gente de linha de Gexá!

Para quem deseja conhecer as raízes do samba este é um disco obrigatório, amostra única de um momento de três artistas que fizeram deste um marco atemporal na história musical brasileira.

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