A felicidade canta em qualquer canto

Ná Ozzetti é uma das artistas mais brilhantes com quem tive a felicidade de trabalhar.

Com ela, aprendi a exercitar a disciplina que, por muitas vezes, passa ao largo do que se convencionou “show-posto” – nunca fiz isso, mas sim musicais, mesmo que durassem apenas três dias! Com Ná fiz um trabalho sobre a obra de Ismael Silva, e me lembro de muitas farpas e giletes, da cenografia de minha irmã, e do medo que eu tinha que Ná se ferisse, ou rasgasse seu vestido vermelho (símbolo da paixão segundo Ismael Silva).

Toda vez que penso em Ná, penso na generosidade de uma alma que veio ao mundo para encher de beleza e poesia nosso mundo, reinventando felicidades, alegrias – a felicidade tem os olhos azuis, e encanta e canta, em todo e em qualquer canto.

fonte da imagem: site da artista


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Sócrates Brasileiro, por Zé Miguel Wisnik


Ouça o belo samba enredo composto por Zé Miguel Wisnik em homenagem ao mais brasileiro dos jogadores de futebol:

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira
Deu um pique filosófico ao nosso futebol
O sol caiu sobre a grama e se partiu
Em cacos de cristais
As cores vestiram os nomes
E fez-se a luta entre os homens
Até os apitos finais
(Disseram os deuses imortais)

A história não esquece que a bola se negou mas chorou nosso gol
E vai se lembrar para sempre da beleza que nada derrotou
Mas quem será que diz que venceu
No país em que o ouro se ganhou e perdeu
(Derreteu)

O futebol é a quadratura do circo
É o biscoito fino que fabrico
É o pão e o rito o gozo o grito o gol
Salve aquele que desempenhou
E entre a anemia a esperança
A loteria e o leite das crianças
Se jogou

Com destino e elegância dançarino pensador
Sócio da filosofia da cerveja e do suor
Ao tocar de calcanhar o nosso fraco a nossa dor
Viu um lance no vazio herói civilizador
(O Doutor)

Fonte da imagem: João Quesado (Divulgação)

Saudades do Brasil de Aurora Miranda

Em 1999, marcamos um chá, pontualmente às 5hs. Levei uma câmera pesada, esperei na sala, tímido, com perguntas decoradas para “fazer bonito”.

E de repente entra ela, Aurora. Gravei pouco. Falamos muito. O perfume de Aurora pespegou-se em minha memória – por vezes ainda o sinto. E ouço, no silêncio do silêncio de uma saudade guardada, a voz de Aurora cantando “Alguém me ama”, “Você só mente”, “Cidade Maravilhosa”. E me flagro aos prantos, com saudades de Aurora. Com saudades de mim. Com saudades do Brasil!

“Eu queria ser o Pato Donald”, lembro-me de ter dito a Aurora! E ela, discretamente, riu, e deu-me um beijo no rosto.


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“No Salão do Barbeiro” no Sesc Pompéia

É neste sábado, 03 de dezembro de 2011, na Choperia do Sesc Pompéia, o show de lançamento do novo CD do compositor e violonista Zé Barbeiro. Gravado ao vivo em fevereiro deste ano no “Projeto Rumos” do Instituto Cultural Itaú, “No Salão do Barbeiro” apresenta um repertório 100% autoral do músico mais representativo das rodas de choro e das noites instrumentais paulistanas.

O viés dançante caracterizado nos  ritmos brasileiros explorados por Zé Barbeiro – do baião ao maxixe, da rumba ao samba de gafieira – é a marca registrada do show, que contará com a presença de dançarinos de salão performando a ambientação de baile proporcionada pelo repertório.

Assista a seguir uma amostra deste ambiente: o samba de gafieira A Turma.

No Salão do Barbeiro

SESC Pompéia. Sábado (03/12) às 21h30. Rua Clélia, 93. Tel.: 11 3871-7700. Ingressos: R$ 16,00 (inteira); R$ 8,00 (usuário matriculado no SESC e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino) e R$ 4,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes).

Mais informações: site do evento 


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Fonte da imagem: Divulgação

Dona Maria, essa Flor de Paquetá

Cristininha, minha Dona Maria, elo reencontrado de Aracy Almeida e de tantas outras vozes esquecidas no fazimento desse país avesso. Vozes essas que Cristina, cabrocha loura, evoca por meio de sua autenticidade ímpar, voz de pastora, generosa amiga, mulher mais adorada, flor eternizada nas escutas de minha alma.

Fizemos alguns trabalhos, e faremos mais. Porque o amor é a coisa mais livre.

Um fato curioso, e engraçado: Na ocasião dessa montagem que dirigi, a peça de Plínio Marcos (O Poeta da Vila e seus amores), Cristininha interpretava a ânima de Aracy de Almeida, sempre a entoar os sambas de Noel, compositor de quem gravara muitos, muitos sambas ao longo de seus quase 40 anos de carreira.

Uma jornalista jovem aprochegou-se, sabendo que Cristina havia registrado muitos temas de Noel, e sem saber da prematura morte do autor, imaginou que Cristina o tivesse conhecido, lançando-lhe a pergunta: “Cristina, como era sua relação com Noel Rosa?”. Sem titubear, com seu senso de humor perspicaz e absurdamente ligeiro, a sambista respondeu: “Olha, minha filha…fodemos muito!”

Acho que a jornalista até hoje pensa que Cristininha é Laurinda, ou a própria Araca, a Arquiduquesa do Encantado! Salve Cristina, Salve Dona Maria, minha flor de Paquetá!

Mario Lago: Nada além de 100 anos

Para não deixar passar a data em branco: o centenário de aniversário do artista multimídia (cantor, ator, compositor e radialista, entre tantas vocações) Mario Lago, nascido em 26 de novembro de 1911.

Vale a leitura deste  perfil do artista artístico, político e biográfico, assim como detalhes sobre o evento que celebrou data, no Rio de Janeiro.

Francis e Olivia Hime cantam “Almamúsica” no Teatro FECAP

Neste fim de semana, nos dias 26 e 27 de novembro de 2011 no Teatro FECAP, em São Paulo capital, o pianista e compositor Francis Hime se apresenta no palco com a cantora e compositora Olivia Hime. O espetáculo será baseado no CD “Almamúsica”, lançado em maio de 2011, que irá ganhar versão em DVD (realizado pelo Canal Brasil) durante estas presentações paulistanas.

O espetáculo reúne canções que percorrem clássicos da MPB, como “O que será (A flor da pele)”, “Morena do Mar” e “Risque”; relembra canções extraídas do catálogo da chanson française, como “Du Soleil plein la tête” e resgata a memória afetiva do casal Hime em temas como “Canta, Maria”, “Saudade de Amar” e “Smile”. A nova “Almamúsica”, de Olivia e Francis, também está no roteiro musical.

A seleção de canções foi feita de forma natural, sempre pelos dois. Olivia Hime conta mais sobre Almamúsica: “Pode ser uma biografia? Memórias musicais? Porque esta suíte, esta música e não outra? Não sei. Foram associações livres. Algumas canções balizaram o caminho, outras costuraram musicalmente o enredo. Me parece que assim, unidas, ganham o sentido que queríamos dar ao CD e ao show: as infinitas belas canções têm uma ligação entre elas”, completa Olivia.

Almamúsica

Teatro FECAP. Av. Liberdade, 532, tel. 3188-4149. Sábado 26/11 às 21h e domingo 27/11 às 19h. Ingressos: R$ 40,00 (inteira); R$ 20,00 (meia entrada para estudantes).
Mais informações: site do evento

Fonte da imagem: Divulgação

Lançamento do Acervo Digital Chiquinha Gonzaga em SP


Alexandre Dias no palco do Auditório Ibirapuera em 30/10/2011 (fonte da imagem: Alexandre Dias)

A dupla de pianistas Alexandre Dias e Wandrei Braga, responsáveis pelo Acervo Digital Chiquinha Gonzaga, se apresenta mais uma vez em São Paulo capital para celebrar o lançamento do site. O concerto será no teatro do colégio Humboldt às 20h30. No programa músicas conhecidas e inéditas da compositora.

Veja a seguir o vídeo de uma matéria da íntegra sobre o trabalho de Alexandre e Wandrei exibido na TV Bandeirantes no início desta semana, que dá uma amostra do repertório que será visto no concerto:

A partir de uma lista elaborada pela biógrafa de Chiquinha, a escritora Edinha Diniz, foi feito um catálogo atualizado das obras da compositora. As alterações em relação ao catálogo que existia até então foram muitas e envolvem desde as “músicas sinônimas”, ou seja, músicas que embora possuam títulos diferentes têm o mesmo conteúdo musical, fato comum e recorrente na obra de Chiquinha, até partituras totalmente inéditas, de músicas jamais publicadas ou gravadas.

Durante mais de três anos, Alexandre e Wandrei garimparam partituras em diversas fontes, como admiradores, pesquisadores, acervos de bibliotecas e colecionadores. O resultado foi um salto considerável, de aproximadamente 12 músicas (ínfimos 5%) que estavam disponíveis comercialmente, para mais de 300 partituras, quase 100% da obra de Chiquinha à disposição gratuitamente (com exceção das músicas que compõem a integral para as peças teatrais). Pode-se constatar a versatilidade de Chiquinha pela variedade de ritmos e gêneros presentes em seu trabalho. São choros, valsas, tangos brasileiros, canções, polcas, fados, habaneras, romances, duetos, baladas, marchas, peças sacras, serenatas, barcarolas, modinhas, gavotas, mazurcas e dobrados. Cada música será disponibilizada em sua versão original e versão cifrada, para contemplar músicos de todas as esferas, acompanhadas de notas informativas escritas pela biógrafa de Chiquinha, Edinha Diniz exclusivamente para o Acervo Digital. Além disso, também vão estar no site todas as letras das canções de Chiquinha Gonzaga, nunca antes publicadas.

Inicialmente, as partituras foram transcritas para um programa de editoração musical. Depois disso, cada uma delas passou por uma revisão minuciosa com base nos manuscritos originais e primeiras edições pesquisadas no Instituto Moreila Salles, parceiro e atual detentor do acervo. Edinha Diniz, outra parceira do projeto, criou notas exclusivas para descrever cada uma das peças. Além de um texto biográfico redigido especialmente para o site.

Para finalizar, todo esse material recebeu um tratamento da equipe de design que elaborou o projeto visual que inclui capa e contracapa personalizadas para cada uma das composições.

Concerto de lançamento do Acervo Digital Chiquinha Gonzaga
Quinta-feira 18/11/11 às 20h30
Teatro Humboldt: Av. Engº Alberto Kuhlmann, 525 | Tel: 11 5686-4055 | São Paulo
Entrada: $10 ou 1K de alimento não perecível
Informações: página do evento 

Alexandre Dias e Wandrei Braga no Auditório Ibirapuera

Os pianistas e pesquisadores Alexandre Dias e Wandrei Braga, idealizadores do site do Acervo Digital Chiquinha Gonzaga (www.chiquinhagonzaga.com.br) apresentam Chiquinha, Clássica e Inédita.

O repertório com 16 músicas mescla obras conhecidas com outras nunca antes ouvidas desta compositora, instrumentista, regente e marcante personalidade feminina da história da música popular brasileira.

Prelúdio, da opereta A Corte na Roça; Agnus Dei; Ave Maria; Prece a Nossa Senhora das Dores; Santa; Uma Página Triste; A Sorte Grande e Cançoneta , adaptadas para piano solo, e Hino à Redentora e Fantasia Ato 1 – Introdução, formam o repertório que o público do Auditório Ibirapuera poderá ouvir pela primeira vez (veja abaixo a relação completa das músicas e sua execução).

Embora seja mais reconhecida pela marchinha Ó Abre Alas, primeira canção carnavalesca criada por ela, em 1899, Chiquinha (1847-1935) foi, ainda, a primeira maestrina do país, primeira pianista de choro, introdutora da música popular nos salões elegantes e fundadora da primeira sociedade protetora de direitos autorais. A apresentação marca o lançamento do site que, pela primeira vez, dá acesso a mais de 300 partituras de sua autoria revisadas e digitalizadas.

Conhecedores desta vasta obra, e admiradores da compositora, os pianistas Alexandre Dias e Wandrei Braga que interpretam as suas obras no Ibirapuera, mergulharam em extensa pesquisa a partir de uma lista elaborada pela biógrafa de Chiquinha, a escritora Edinha Diniz. O trabalho consumiu três anos de pesquisas dos músicos em busca de partituras entre acervos de bibliotecas, colecionadores e aficionados. Com isso, a lista de 12 músicas dela conhecidas e disponíveis comercialmente deu um salto para mais de 300 partituras, quase 100% de sua obra.

Entre, choros, valsas, tangos brasileiros, canções, polcas, fados, habaneras, romances, duetos, baladas, marchas, peças sacras, serenatas, barcarolas, modinhas, mazurcas e dobrados, elas as estão à disposição gratuitamente no site do Acervo Digital Chiquinha Gonzaga, idealizado por estes músicos.

Auditório Ibirapuera. 30/10, domingo, às 11h. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº – Portão 2. Tel.: 11 3629.1075. Ingressos: Entrada Franca, por ordem de chegada, até completar a capacidade de 800 lugares.

Fonte da imagem: Divulgação

Ideal

Raras de Ernesto Nazareth

Ouça o tango brasileiro Ideal, de Ernesto Nazareth, na interpretação de Alexandre Dias (clique no botão PLAY abaixo para ouvir. Atenção: caso a gravação não esteja sendo reproduzida corretamente, acesse o site da Piano Society, que contém todas as gravações da série disponíveis para download):

Grãos de café – fonte da imagem: Flickr (jcolivera.com)

O tango brasileiro Ideal, publicado em 1905 sob encomenda da Casa Pinto & C., é uma das pérolas escondidas no repertório Nazarethiano. Embora existisse um Cine Ideal (o favorito de Ruy Barbosa, à Rua da Carioca nº 60), é improvável que o tango fizesse referência a ele, pois em sua dedicatória consta: “aos compradores do Café Ideal”.

Segundo o biógrafo Luiz Antonio de Almeida, naqueles tempos, as pessoas compravam café em grãos, torrando-os e moendo-os em casa. Daí ser provável que o Café Ideal –  “O melhor e mais saboroso – Vende-se em toda a parte – Rua da Saúde, 150”- “fosse das primeiras marcas a comercializar o produto já em pó e acondicionado em embalagens”.

Esta constitui, portanto, uma das peças de cunho comercial de Nazareth, em que ele faz referência a uma empresa, possivelmente vindo a gozar dos benefícios que a propaganda viria a proporcionar. Dentre vários outros exemplos em sua obra, cito também o tango brasileiro Pyrilampo “Dedicado aos laboriosos industriais Srs. Lima Junior & Cia., proprietários da importante fabrica de lâmpadas Pyrilampo”, o samba brasileiro Suculento, com letra exaltando os poderes do xarope Vermutin, e a valsa Cardosina “Oferecida por Almeida Cardoso & Cia., a seus distintos fregueses e amigos”, cujo título faz referência a um xarope para tosse e bronquite desenvolvido pela Farmácia Homeopata Almeida Cardoso.

Em 1905 Nazareth tinha 42 anos e, segundo o biógrafo Luiz Antonio de Almeida, residia na Avenida dos Anjos nº3, à Rua Senador Furtado, no bairro do Maracanã. Neste ano também foram publicadas as peças Escovado, Coração que Sente, Ferramenta, e composta a valsa Cardosina, ainda inédita em publicação.

Esta é a época das primeiras gravações feitas no Brasil, cuja indústria fonográfica abriu as portas em 1902. É interessante notar que o nome de Nazareth já figurava nos lançamentos de 78-RPMs desde o primeiro ano. Algumas gravações de suas músicas dessa época são: Está Chumbado, pela Banda do Corpo de Bombeiros em 1902 (Zon-O-phone X-1055), Favorito (“Saco de Alferes Cidade Nova”), pelos cantores Bahiano e Senhorita Consuelo, acompanhados de pianista anônimo por volta de 1903 (Odeon 689), Brejeiro (“O Sertanejo Enamorado”), pelo cantor Mário Pinheiro acompanhado de pianista anônimo por volta de 1905 (Odeon Record 40.227), Brejeiro, pela Banda do Corpo de Bombeiros (Odeon Record 40.572) e Turuna, pela mesma banda (Odeon Record 40.589), ambos por volta de 1906.

No entanto Ideal foi gravada apenas uma vez até o presente momento (dezembro de 2010), pelos músicos Daniel Allain (flauta), Israel Bueno (violão 7 cordas), Marco Bertaglia (violão 6 cordas), Arnaldinho do Cavaco e Guta do Pandeiro, em gravação lançada em 2008 no CD que acompanha o Songbook “Ernesto Nazareth 3” (Clássicos do Choro Brasileiro) (CCEN03PE), da editora Choro Music. Sua versão original para piano solo, portanto, permanece inédita em disco.

Não existem edições comerciais desta peça à venda hoje, porém para uma edição moderna revisada por mim, acesse este link.

Ideal é um tango especialmente delicado, marcado pelas indicações “suave” na parte A, “bem jocoso” na parte B, e “brincando” e “demorando com graça” na parte C. Nele não vemos o caráter percussivo de outros tangos como Sarambeque ou Catrapuz. Confirmando esta idéia, em seu manuscrito consta o subtítulo “Serenata Poética” (a única referência ao signo “poesia” em sua obra). Tendo em vista estes humores, optei por interpretar Ideal com um espírito onírico, buscando ressaltar seu lado pueril.


Capa do tango Ideal. “Dedicado aos compradores do Café Ideal”.

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